Por Ricardo Sastre*

Desde os primeiros registros da humanidade no planeta terra, as pinturas rupestres indicavam a necessidade dos seres humanos em se expressarem com representações gráficas. Acelerando o processo histórico evolutivo, muito tempo depois, surgiu a escrita e os primeiros processos para registrar as ideias como a xilogravura, por exemplo. O aumento da população criara outras demandas como o dinheiro impresso e a reprodução de livros em maior escala para difusão do conhecimento. A expressão artística ultrapassou diversas escolas e movimentos, como o renascentista, surrealismo e muitos outros.
O design, um pouco mais recente e em sua atuação ampla, teve um movimento evolutivo parecido, ganhando ênfase após a primeira guerra mundial com a Bauhaus e a escola de Ulm algumas décadas depois, ambas na Alemanha. Preocupadas primeiramente com a reconstrução do país, mas acima de tudo criando uma identidade filosófica e visual a partir do olhar e habilidades humanistas com desenhos e grafismos, instigando a expressão direta das ideias e do repertório dos designers. Elementos marcantes e característicos dos artistas e pensadores que ali estavam, ou seja, a essência de cada ser humano se sobrepondo aos recursos tecnológicos da época.
Conforme a humanidade avançara, novas tecnologias foram surgindo para suprir as demandas de uma comunidade mundial cada vez maior, assim, os processos de reprodução em série avançaram rapidamente, mas a aura dos arquivos originais continuou em evidência. A sensação de visualizar o quadro da Monalisa no Louvre é muito diferente do que em uma caneca ou em uma camiseta.

Os movimentos culturais e artísticos trazem elementos próprios de identificação, mas respeita as características individuais dos produtores de conteúdo, sejam artistas plásticos, designers, dentre outros. Avançando um pouco mais, já nos processos mecânicos de reprodução em série, a escolha das letras (fontes), e efeitos visuais que seriam utilizados em um livro ou cartaz, dependia da disponibilidade de opções nas oficinas tipográficas. Nem sempre era possível escolher algo mais personalizado ou inédito.
Em outros processos de impressão, como a serigrafia e offset, as matrizes eram feitas manualmente e a habilidade da arte finalista influenciava no resultado, e ao mesmo tempo, atraia novos clientes. As habilidades humanas continuaram se sobrepondo à tecnologia.
Na virada deste século, com a entrada em massa dos computadores, um universo de possibilidades visuais se abriu e popularizou. As ferramentas passaram a ser virtuais e os algoritmos evoluíram rapidamente. As fontes que antes eram armazenadas em pesadas gavetas, agora passou a não ocupar mais espaço físico. As possibilidades de diversificação aumentaram, mas o que era mais acessível e com características adaptáveis se sobrepôs.
Alguns estilos de letras e efeitos visuais se popularizaram e começaram a ser utilizados em massa. Em poucos anos, a comunicação visual manifestada em fachadas, materiais de divulgação e embalagens para atender a grandes públicos começaram a se padronizar, influenciados por recursos disponíveis no momento, como softwares de editoração eletrônica, CDs com desenhos pré-definidos, chamados de clipart e outros. A partir deste momento, devido a necessidade de resolver problemas em um espaço de tempo menor, houve uma inversão, os recursos tecnológicos se sobrepuseram às habilidades humanas.
Com a chegada da internet, os sites de busca foram mandatórios neste movimento de padronização visual. As redes sociais evidenciaram a mesma necessidade primitiva dos seres humanos se expressarem e interagirem, agora potencializada com o maior alcance e mais recursos virtuais.
Da mesma forma que os processos produtivos e o avanço da tecnologia influenciaram fortemente na padronização visual, as habilidades humanas para desenhar e se expressar se tornou um recurso para poucos clientes. O tempo de dedicação e a formação é outra. A velocidade do tempo percebido, diferente do tempo cronológico, aumentou significativamente. O que restou para quem não tem tempo e não dispõe de recursos financeiros para contratar um profissional dedicado em desenvolvimento autoral, foram os recursos virtuais cada vez mais acessíveis, acompanhando este ritmo alucinado de sobreposição de tarefas.
Depois dos degradês, fontes padronizadas e recursos acessíveis nas barras laterais dos softwares de editoração eletrônica, veio a internet, agora estamos enfrentando uma nova onda de padronização visual nas peças gráficas e embalagens: o uso da inteligência artificial.
A maré está mudando, as ondas estão cada vez mais fortes e rápidas, é perceptível em uma caminhada pelo bairro, perceber que as imagens e elementos visuais são os mesmos para muitos restaurantes e lojas. Nos supermercados as embalagens estão mudando rapidamente. O que antes era tecnologicamente difícil de reproduzir, agora tudo se torna mais simples e acessível. Os modelos humanos utilizados em embalagens aos poucos estão sendo substituídos por modelos virtuais que não reclamam e não cobram direitos autorais.
Por um lado, viveremos uma pasteurização dos elementos visuais que invadem e fazem parte das nossas vidas. Por outro lado, os projetos autoriais ganharão força e se destacarão mais neste universo padronizado. Temos que levar em conta que a velocidade da mudança varia de acordo com a realidade de cada comunidade. A tecnologia não desaparece, ela muda de escala.
Qual será a próxima onda? Será que a Inteligência Artificial alcançará as habilidades humanas?


