A estratégia da Nadir no mercado de embalagens de vidro

Mario Pinto, diretor Comercial e Marketing da Nadir
Mário Pinto Junior, diretor Comercial e Marketing da Nadir

Presente na memória afetiva e no cotidiano de milhões de brasileiros através de clássicos como o Copo Americano, a Nadir está promovendo uma verdadeira revolução nos seus bastidores. Conhecida por sua liderança no segmento de Utilidades Domésticas (UD), a vidraria estruturou uma vertical de negócios exclusiva para consolidar sua posição como parceira estratégica na fabricação de embalagens industriais de vidro.

Em um momento em que a indústria de alimentos busca alternativas para se diferenciar na gôndola, agregar valor às marcas e responder às crescentes exigências de sustentabilidade e saúde, o vidro ressurge com força total. Em um bate-papo exclusivo, Mário Pinto Junior, diretor Comercial e Marketing da Nadir, detalha a reestruturação comercial da companhia, os altos investimentos em automação com Inteligência Artificial na fábrica de Suzano (SP) e os planos ambiciosos de fazer a divisão de embalagens saltar de 12% para 20% do faturamento total da empresa nos próximos anos.

A seguir, o executivo explica como a flexibilidade para rodar lotes exclusivos, o uso de vidro de altíssima resistência e a entrada em novos segmentos estão transformando potes e copos de vidro em poderosas ferramentas de conversão de vendas.

Como está estruturada a capacidade fabril e de exportação da Nadir hoje, no Brasil e no exterior?

No Brasil, temos a nossa planta fabril em Suzano (SP). Em 2021/2022, a Nadir adquiriu a Cristar, na Colômbia, então hoje também contamos com uma fábrica lá. Do volume que produzimos no Brasil, exportamos um pouco mais de 10%. Já na Colômbia a operação é altamente voltada para o mercado externo: cerca de 70% do que é produzido lá vai para exportação, principalmente para a região Andina, América Central, Estados Unidos e uma parte da América do Sul, incluindo a Argentina.

E qual é a relevância do segmento de embalagens de vidro dentro dessa operação?

A Nadir é líder no Brasil no segmento de Utilidades Domésticas (UD) e a quarta maior empresa do mundo em utensílios de vidro, presente em mais de 100 países. No Brasil, o segmento de embalagens específicas para a indústria representa atualmente cerca de 12% do nosso faturamento total, mas em volume físico chega a corresponder a até 30% da nossa produção. Para nós, embalagens são uma grande avenida de crescimento estratégico.

O mercado conhecia a empresa como “Nadir Figueiredo”. Quando ocorreu a mudança oficial para apenas “Nadir”?

A mudança ocorreu em 2020. O fundo de investimentos adquiriu a empresa em outubro de 2019 e, após um estudo de branding, decidiu-se adotar apenas “Nadir”. É um nome mais simples, moderno e fácil de memorizar pelo consumidor.

E como a empresa tem se estruturado internamente para atender os clientes corporativos de embalagens?

Fizemos mudanças importantes. Criamos uma gerência dedicada exclusivamente a embalagens, que até o ano que vem se transformará em uma vertical de negócios de embalagens. Isso significa ter estrutura própria: temos profissionais de marketing focados só em embalagens, equipes dedicadas de Customer Service (Atendimento ao Cliente) e expedição logística separada. Como a dinâmica de suprimento para a indústria de alimentos é contínua e não pode falhar, separar a logística de embalagens da área de UD (que tem pico concentrado no fim do mês) foi essencial para elevar nosso nível de serviço.

Quais investimentos foram feitos no processo produtivo para garantir o padrão de qualidade das embalagens?

Implementamos na fábrica de Suzano (SP) uma máquina de inspeção automatizada com Inteligência Artificial (IA) específica para a linha de embalagens. Antes, a inspeção visual era feita manualmente. Agora, a máquina fotografa cada unidade produzida, e a IA identifica instantaneamente qualquer deformidade ou risco, parando o processo na hora. Isso trouxe um ganho de produtividade e eficiência absurdo, além de reduzir drasticamente a margem de falha humana. Estamos trazendo mais equipamentos com essa tecnologia.

Como funciona a política da Nadir quanto ao uso de vidro reciclado na composição dos potes e garrafas?

Nós temos cinco fornos no total, sendo dois grandes dedicados ao vidro transparente (flint). Para manter a transparência cristalina e a resistência mecânica alta – características reconhecidas do nosso vidro -, não utilizamos cacos de vidro externos. O único caco reciclado inserido no forno é o resíduo do nosso próprio processo produtivo (como o excesso do corte das taças). O vidro utilizado para fazer um copo americano ou uma taça de UD é rigorosamente o mesmo utilizado nos nossos potes de embalagem industrial. É um insumo único e de altíssima qualidade.

O setor de plástico vem enfrentando pressões ambientais e de imagem. Como você enxerga o momento atual do vidro como alternativa para a indústria de alimentos?

Durante a pandemia (2020–2022), o mercado de bens de consumo viveu um forte pico de demanda e estocagem. Depois, entre 2023 e 2024, o mercado ajustou e as empresas passaram a buscar diferenciação na gôndola. O plástico virou um indicador de preço em muitas categorias. No requeijão, por exemplo, houve uma migração massiva para o copo de plástico nos últimos 15 anos, mas o produto virou commodity. Quem se manteve no vidro, como Aviação e Itambé, por exemplo,  consegue se diferenciar. O vidro é aspiracional e agrega valor. Se um produto em pote de plástico custa 10 reais e a versão em vidro custa 13 reais, o consumidor muitas vezes opta pelo vidro devido à percepção de higiene, saudabilidade (ausência de microplásticos/resíduos) e à reutilização do recipiente em casa.

Em quais segmentos de alimentos a Nadir tem expandido sua atuação?

A estratégia da Nadir no mercado de embalagens de vidro
Embalagens exclusivas da Nadir para segmentos como doces, geleias e requeijão

Somos muito fortes nas categorias de requeijão, azeitonas, geleias, doce de leite (como o pote exclusivo da Havanna e Aviação) e palmitos. Este ano, estamos entrando forte em duas novas categorias. Lançamos potes específicos para o segmento de cafés solúveis/gourmet e também para passata de tomate, um mercado que cresceu muito no Brasil nos últimos anos e exige garrafas de vidro diferenciadas. Não temos pretensão de entrar no mercado de embalagens para bebidas ou cervejas, que exige uma escala diferente e onde atuam grandes players como Verallia e Owens-Illinois. Nosso foco e diferencial competitivo estão no setor de alimentos, azeites e molhos.

A Nadir tem capacidade de oferecer moldes exclusivos e personalização para marcas que buscam menor volume de produção?

A estratégia da Nadir no mercado de embalagens de vidro
Potes de azeitonas decorados para a Copa do Mundo

Sim, esse é um dos nossos maiores diferenciais. Temos flexibilidade para trabalhar com Lotes Mínimos de Produção (MOQs) menores que os grandes concorrentes. Conseguimos criar moldes exclusivos (como o pote da Aviação) e oferecer soluções sob medida para marcas premium. Além disso, temos uma unidade própria de decoração de vidro em Suzano. Oferecemos pintura, serigrafia e gravações. Lançamos recentemente coleções decoradas de potes para azeitona voltadas para a Copa do Mundo, datas comemorativas como Natal e Dia das Mães, além de parcerias técnicas para tampas metálicas em conjunto com fabricantes como a Rojek.

Há também uma tendência espontânea que tem impulsionado as vendas: a reutilização criativa e o uso do copo americano como embalagem final…

Um exemplo recente e impressionante é a “febre” do pudim no copo americano. Pequenos e médios produtores estão assando o pudim em banho-maria diretamente no nosso copo americano e selando com a tampa hermética da Rojek. O vidro resiste ao calor do forno, a embalagem vira um presente nostálgico e agrega um valor enorme ao produto na ponta.

Qual é a meta da Nadir para a divisão de embalagens nos próximos anos?

O mês de julho de 2024 foi o recorde histórico de vendas de embalagens da empresa no pós-pandemia. Estamos crescendo a duplo dígito este ano. Atualmente, o segmento de embalagens representa entre 12% e 13% do faturamento total da Nadir no Brasil. A nossa meta estratégica, com a consolidação da nova vertical de negócios, é fazer com que a divisão de embalagens alcance 20% de participação no faturamento total da companhia nos próximos cinco anos.

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