EmbalagemMarca conversou com Nibaldo Reyes, gerente de abastecimento da Viña Santa Carolina, que analisa as transformações da indústria vinícola chilena nas últimas décadas
Por Flávio Palhares – o editor do portal EmbalagemMarca viajou a Santiago com apoio da Avery Dennison e All4Labels
Em um país essencialmente exportador como o Chile, onde até 80% de toda a produção de vinho é destinada ao mercado internacional, a escolha de cada componente da embalagem, da leveza do vidro à tecnologia do adesivo do rótulo, é uma decisão crítica que impacta diretamente a logística e a competitividade das marcas.
Para entender os bastidores dessa engrenagem industrial, conversamos com Nibaldo Reyes, gerente de abastecimento da tradicional Viña Santa Carolina. Com quase três décadas de bagagem no setor vitivinícola, Reyes testemunhou de perto a transição do mercado: da era dos rótulos de papel colados manualmente à revolução digital dos autoadesivos, o aliviamento das garrafas devido às exigências ecológicas e tributárias de mercados como o Canadá, e o avanço avassalador da tampa de rosca (screw cap), que hoje já sela 65% das garrafas chilenas.
A seguir, ele detalha como a Santa Carolina equilibra seus 150 anos de tradição e conservadorismo com um modelo de operação ágil, focado na produção sob demanda e na customização de rótulos globais para atender a mais de 80 países.

O universo de suprimentos para o setor vitivinícola é vastíssimo, envolvendo garrafas, rótulos, cápsulas, caixas e fechamentos. Para iniciarmos, como você descreveria o panorama geral da indústria chilena em relação ao destino da sua produção e ao papel da embalagem na estratégia das empresas?
De modo geral, as vinícolas chilenas exportam sua produção. Aqui no Chile, estima-se que a proporção de vinho exportado em relação à proporção de vinho consumido internamente seja de aproximadamente 75%, e em alguns casos chega a 80%. As vinícolas, dependendo de sua estratégia, definirão a embalagem, os suprimentos que usarão e os tipos de vinho que venderão. Grandes empresas como Concha y Toro, San Pedro e Santa Rita, por exemplo, vendem todos os tipos de produtos, desde vinhos finos e icônicos em garrafas até produtos envasados em embalagens Tetra Pak ou em bag-in-box.
Na pirâmide tradicional, os vinhos icônicos têm um volume muito menor. Está diretamente relacionado: maior qualidade, menor volume. O mercado de luxo vende muito pouco, mas vende a preços altos. Isso não significa que o vinho de cima seja icônico e os de baixo sejam diametralmente opostos em termos de qualidade. É provável que existam algumas diferenças, mas a grande variação está em tudo relacionado à embalagem e às uvas que utilizam para a produção. Dependerá muito do nicho em que a vinícola vai se posicionar. Geralmente, no Chile, as grandes vinícolas vendem um pouco de tudo: vinhos emblemáticos ou premium, vinhos reserva, vinhos varietais e vinhos genéricos.

E como a Viña Santa Carolina se posiciona dentro dessa pirâmide de mercado?
A Viña Santa Carolina é uma vinícola com 150 anos de história, figurando entre as cinco mais antigas do Chile. Eu diria que somos bastante conservadores em nossa proposta de valor, começando pelo produto que oferecemos. Tanto que ainda vendemos um produto chamado Reserva de Família, um de nossos vinhos premium, que ganhou o prêmio de melhor Cabernet do mundo em 1879, em uma feira realizada em Paris. Naquela época, os franceses se reuniram em uma degustação às cegas e escolheram o nosso vinho. Menciono esse produto porque ele ainda é vendido hoje, e com uma embalagem muito semelhante à de antigamente. Isso reflete o nosso respeito à tradição.
Mas, comercialmente falando, a maior parte das vendas da Viña Santa Carolina está na linha Reserva, mais abaixo na pirâmide. O que fazemos, então, é coletar informações através da nossa equipe de marketing que visita o exterior para entender o que os consumidores querem. Se identificamos que o mercado rejeita algo muito chamativo, ou prefere garrafa com rolha em vez de tampa de rosca, nós nos adaptamos. O mercado nos dá a pista de como devemos abordar cada praça para que o produto seja bem-sucedido.
Uma dúvida operacional sobre o dia a dia da fábrica: vocês produzem para estocar ou o modelo de vocês é baseado sob demanda?
A Viña Santa Carolina, diferentemente de outras vinícolas como a Concha y Toro, só produz quando recebe um pedido de compra. O cliente no Brasil, por exemplo, nos envia o pedido e, nesse momento, eu ativo todos os alarmes e vou verificar quanto do meu estoque preciso utilizar para rodar a linha. O vinho e as garrafas estão sempre lá disponíveis; às vezes é um pouco mais difícil conseguir as caixas, o que depende do capital de giro autorizado para manter em reserva.
Meu compromisso com clientes internacionais é que o pedido estará pronto para embarque entre 26 e 28 dias após o recebimento. Não produzimos mercadorias para manter em estoque regulador. Em períodos de baixa demanda, se sabemos que um cliente grande do Brasil vai mandar um pedido no final de abril, por exemplo, nós fazemos um estudo interno e aumentamos o estoque de insumos para nos antecipar, mas a regra geral é produzir sob encomenda.
Vinícolas como a Concha y Toro operam de outra forma: eles produzem grandes volumes constantemente e enviam para suas próprias sedes e armazéns logísticos no Brasil, Estados Unidos ou Inglaterra. No Brasil, eles mantêm o estoque em São Paulo e distribuem fracionado para os supermercados em poucos dias. Nós enviamos os contêineres consolidados direto de nossa fábrica.
Para quantos países a Santa Carolina exporta atualmente e como vocês gerenciam a rotulagem para mercados tão distintos? Os rótulos são padronizados?
Exportamos para cerca de 80 países. Nossos maiores mercados são Canadá, Brasil, Dinamarca e Rússia, além de vizinhos como Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai, República Dominicana e Peru. E respondendo à sua pergunta: os rótulos mudam em cada mercado, mas nós buscamos a máxima padronização possível por uma questão de eficiência.
Deixe-me explicar como funciona o nosso modelo de “semiacabado”. Imagine que vamos vender um vinho da categoria varietal Cabernet Sauvignon para a América Latina. Nós produzimos o vinho e o engarrafamos apenas com a vedação (rolha ou tampa). Essa garrafa sem rótulo é o nosso semiacabado. Se um cliente do Brasil compra, eu aplico o rótulo da marca Reservado. Se um cliente da Colômbia pede o mesmo vinho, eu aplico a marca Vistaña. Se for para o Equador, vira Miraflores. O vinho é rigorosamente o mesmo, a garrafa é a mesma, mas personalizo a marca e a caixa (de 6 ou 12 unidades) conforme a necessidade do comprador.
E quando a marca é a mesma para vários países, como vocês administram os contrarrótulos e as diferentes legislações?
Se vendemos a marca Reservado para Brasil, Equador, Colômbia e Uruguai, o rótulo frontal é exatamente o mesmo para toda a América Latina. O contrarrótulo (a parte de trás) é o que varia, embora a gente tente evitar isso. Os clientes sempre pedem exclusividade na parte de trás, dizendo que a lei local exige, mas o que nos beneficia industrialmente é a padronização. Se eu tiver o mesmo rótulo frontal e traseiro, um estoque impresso para o Brasil pode ser usado amanhã para atender um pedido urgente do Uruguai.
Por isso, fizemos um trabalho importante de desenvolvimento de “rótulos globais” na parte frontal. Neles, padronizamos o que todos os mercados entendem: a marca, a variedade da uva, o ano da colheita (safra), o teor alcoólico e o volume. Já o contrarrótulo precisa ser traduzido. Seria impraticável colocar um texto único em português, espanhol, russo, chinês e japonês na mesma garrafa. Então, nosso objetivo ideal é: o mesmo padrão visual para toda a América Latina, outro bloco padrão para a Europa, e assim por diante.
Você mencionou que completará 30 anos de carreira no setor do vinho. Olhando para trás, qual foi a maior transformação que você presenciou na área de suprimentos gráficos?
O vinho é a minha vida, pagou a escola e a universidade dos meus filhos, devo tudo a ele. Quando comecei, em 1997, era tudo rótulo “magazine”, ou seja, papel aplicado com cola gomada líquida na linha de produção. A mudança para o rótulo autoadesivo começou muito incipiente e, no final da década de 1990, era algo considerado caríssimo. Os papéis eram caros e a impressão era proibitiva para os lotes pequenos que rodávamos sob encomenda. Além disso, mudar para o autoadesivo exigia que as vinícolas abrissem o bolso para trocar as máquinas rotuladoras das fábricas.
Hoje em dia, é impensável não trabalhar com autoadesivos. A tecnologia evoluiu para atender às nossas necessidades. Antigamente, os convertedores exigiam lotes mínimos de 300 mil ou 500 mil etiquetas. Hoje, com a tecnologia de impressão digital, conseguimos rodar lotes de mil ou duas mil etiquetas perfeitamente, o que permite personalizar e rodar pequenos pedidos. Atualmente, entre 92% e 95% dos nossos rótulos na vinícola são autoadesivos. O rótulo gomado tradicional não chega a 5% do mercado chileno total hoje em dia.
Quais são as grandes vantagens técnicas que consolidaram o autoadesivo frente ao sistema de cola tradicional?
Com o papel autoadesivo não há restrições de formato, nem restrições de corte e vinco. Antigamente, qualquer mudança de design exigia um investimento alto em ferramental de corte para o magazine de cola. Além disso, para os vinhos brancos e espumantes, os substratos autoadesivos atuais são imbatíveis em contato com a água e o gelo; os adesivos são potentíssimos e não soltam. Industrialmente, a automação atual nos permite imprimir, cortar, aplicar verniz e fazer o acabamento tudo na mesma linha de produção na gráfica, tornando viáveis efeitos e relevos que antes eram absurdamente caros.
Além dos rótulos, as próprias garrafas de vidro passaram por mudanças nesse período?
Sim, as garrafas evoluíram muito nesses 30 anos, principalmente em termos de peso. Há uma demanda global crescente por embalagens mais leves, com menor pegada de carbono. As vidrarias desenvolveram garrafas chamadas “ecológicas” ou “ecolight“, que utilizam muito menos massa de vidro, mas mantêm a resistência para suportar as variações de temperatura e a pressão do vinho. No Chile, os três grandes fabricantes de vidro já dominam essa tecnologia para as linhas de grande volume.
E existem mercados de exportação que forçam a vinícola a adotar essas garrafas mais leves?
O caso mais radical é o Canadá. Se você enviar vinhos em garrafas pesadas para lá, você sofre uma taxação, um imposto severo sobre o peso do vidro. Nós pagamos essa taxa e embutimos no preço quando enviamos nosso vinho ícone, cuja garrafa sozinha pesa um quilo, mas para grandes volumes isso é inviável.
O Canadá dita regras rígidas porque o mercado lá é controlado por monopólios estatais, sendo o maior deles o Liquor Control Board of Ontario (LCBO), o maior comprador de vinhos do mundo. Eles compram para toda a província de Ontário e estabelecem todas as regras: exigem garrafas leves (muitas vezes abaixo de 400 gramas) e determinam até a resistência das caixas de papelão e das divisórias internas, que precisam cobrir a garrafa inteira para aguentar o empilhamento invertido nos armazéns automatizados deles. Como eles são os distribuidores exclusivos da região, nós simplesmente aceitamos e entregamos o produto exatamente como eles mandam. O Japão ensaia caminhar na mesma linha, mas por enquanto faz apenas sugestões, sem aplicar multas como o Canadá.
Gostaria de falar também sobre as vedações. Como se deu a transição da tradicional rolha de cortiça para a tampa de rosca (screw cap) no Chile?
Essa é uma excelente história. Há 30 anos, o vinho chileno comum de consumo local não usava rolhas de qualidade, e a tampa de alumínio só aparecia naquelas garrafinhas pequenas de avião. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, Portugal, que é o maior produtor de cortiça do mundo, começou a enfrentar sérios problemas com defeitos na cortiça natural que transmitiam um gosto ruim ao vinho (o chamado “defeito da rolha” ou TCA).
Para solucionar isso, a indústria internacional buscou alternativas. Os australianos e neozelandeses foram os pioneiros no desenvolvimento e adoção da tampa de rosca (screw cap, no padrão 30x60mm). Eles fizeram testes científicos e comprovaram que o vinho branco vedado com tampa de rosca mantinha exatamente as mesmas características de frescor definidas pelo enólogo mesmo após 18 meses, com uma performance de vedação contra o oxigênio superior à de muitas rolhas.
Mas a América Latina sempre demonstrou uma resistência cultural a esse tipo de fechamento, correto?
Sim, no mercado latino-americano e no Brasil em particular, existia um forte preconceito. Há dez anos, o consumidor olhava a tampa de rosca e assumia que o vinho era ruim ou barato. Já para os mercados anglo-saxões, a tampa virou padrão de qualidade absoluta, tanto para brancos quanto para tintos jovens. Lembro que, em 2008, fui ao Canadá em uma comitiva técnica organizada por uma multinacional, junto com representantes da Concha y Toro, San Pedro, Santa Rita e Montes, para visitar uma fábrica de tampas que abastecia gigantes como a Pernod Ricard. Ali vimos que o movimento era definitivo.
Na sequência, os gerentes de compras dos exigentes supermercados britânicos aceleraram esse processo. Eles começaram a exigir que os vinhos de volume do Chile abandonassem a cortiça e a rolha sintética em prol da cápsula de rosca, visando garantir a consistência do produto e evitar oxidações no ponto de venda. Isso gerou um verdadeiro boom a partir de 2007.
Qual é a realidade desse mercado hoje em dia em termos de números?
Para se ter uma ideia, a proporção de vinhos chilenos selados com tampa de rosca em relação aos vedados com rolha de cortiça atingiu o patamar de 65% contra 35%. Foi um crescimento estrondoso, puxado justamente pelas linhas de maior volume e vinhos varietais, que migraram quase em sua totalidade para a tampa. O movimento foi tão forte que atraiu três multinacionais para produzir tampas de alumínio diretamente no Chile; hoje temos quatro fabricantes locais e ainda precisamos importar volumes complementares para dar conta da demanda.
Essa mudança impactou até os fabricantes de vidro chilenos, que ficaram preocupados com o ciclo de vida e a ociosidade dos seus moldes antigos de garrafas para rolha, precisando investir em novos conjuntos de matrizes para o gargalo de rosca. A tendência é que a participação da tampa de rosca continue alta, embora o crescimento total do setor encontre um teto agora, dado que o mercado global de bebidas alcoólicas tem enfrentado uma retração nos últimos tempos.



