O design de embalagens é muito mais do que o gráfico e estrutural

Por Ricardo Sastre*

Ricardo Sastre - design
*Ricardo Marques Sastre é publicitário, especialista em expressão gráfica e gestão empresarial; mestre em design; doutor em Engenharia de produção e pós-doutorando em Design, pesquisador, consultor e professor universitário

Em outros artigos publicados nesta revista, foi introduzido o conceito de design sistêmico de embalagens. Avançando um pouco mais sobre esta reflexão, percebe-se a necessidade de oferecer uma solução mais profunda sobre o design de embalagem. Por um lado, o design gráfico ajuda a vender e construir o conceito da marca e da empresa, se comunica e cria uma linguagem própria, por outro lado não resolve sozinho questões relacionadas a processos produtivos e impacto ambiental.

Os projetos estruturais para serem bem-sucedidos, devem acompanhar a linguagem visual proposta pelo design gráfico e atender os requisitos técnicos produtivos e ambientais. Uma embalagem difícil de envasar ou que se relacione mal com o produto e o consumidor, dificilmente terá sucesso no mercado. Estas funções são atribuídas ao design estrutural.

Escolher uma matéria-prima que seja difícil de reciclar ou que ainda não esteja com uma cadeia consolidada são olhares que o projetista de embalagens precisa se apropriar, além disso, existem interações internas e externas, previsíveis e imprevisíveis em que a embalagem sofre durante todo o seu ciclo de vida.

As empresas de design de embalagem precisam se reinventar e integrar em seus portfólios soluções completas para seus clientes, evitando perdê-los ou desenvolver soluções parciais. Devido ao aumento da competitividade na gôndola, novos canais de distribuição como o e-commerce, novos hábitos de consumo e a preocupação cada vez maior com questões ambientais, tornou-se necessário oferecer soluções completas para os donos de marca. Em complemento, carece a formação de profissionais especializados em entender a embalagem como um todo.

Como diria Lincoln Seragini em sua militância em defender uma área de gerência dedicada nas empresas, o projeto de embalagem precisa ter um dono, alguém que tenha o olhar completo sobre ela e acompanhe a equipe de trabalho para o desenvolvimento da melhor solução. Recomenda-se que este grupo seja multidisciplinar para que se reflita nas possíveis consequências das decisões tomadas e possam ser minimizadas antes do lançamento de um novo produto.

A embalagem atua em um sistema complexo e as soluções para o seu desenvolvimento estão dispersas no mercado e na literatura, se não mudar a forma em que o design de embalagem é visto e praticado atualmente, provavelmente teremos como consequência um desinteresse por parte dos profissionais ou empresas que atuam com design de embalagem e/ou o aumento de embalagens problemáticas em seu fim de vida.

Repensar a atuação do design dedicado para embalagens é uma necessidade latente no mercado, atualmente existem poucos especialistas que conseguem entender a embalagem como um todo. Temos que refletir sobre os currículos dos cursos de design que oferecem a disciplina de embalagem e criar uma abordagem mais ampla sobre este universo.

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