Por Marcus Vinícius Rio Correa*

No final de 2025, vimos uma movimentação bastante atípica no segmento de embalagens: um fundo P.E. (Private Equity), o Butterfly Equity, adquiriu nada mais nada menos que a tão famosa ePac. Para os que não a conhecem, trata-se da maior empresa de embalagens flexíveis digitais do mundo, espalhada pelo globo em múltiplas regiões, com foco mais forte nos EUA.
O que chamou atenção não foi o fato em si de um fundo adquirir um ativo de valor, mas um fundo focado na indústria de alimentos fazer uma aquisição de peso na indústria de embalagens. O questionamento que fiz, e creio que muitos também, foi: quais os motivos desta aquisição? Por que um fundo P.E. focado na indústria de alimentos enxergou valor no segmento de embalagens?
O próprio fundo comentou, no pouco que foi divulgado, que um dos objetivos é lançar produtos de marcas pequenas ou novas, que eles costumam chamar de “seed-to-fork” ou “da semente ao garfo”. Essa justificativa para o investimento em embalagens, atrelada à necessidade de impressão digital para pequenas tiragens e diversas quantidades de SKUs, faz todo o sentido. Trata-se de uma movimentação lógica que, além de reduzir custos para as marcas, poderá ampliar a capilaridade das operações não só nos EUA, mas também em outras regiões, caso essa seja a estratégia adotada.
A provocação que me fiz foi: seria isso uma tendência ou uma simples sinergia em um nicho muito específico?
A resposta a que cheguei vai ao encontro do que imaginava: as cadeias produtivas como um todo estão sob pressão, custos de matérias-primas e conversão crescendo ao redor do mundo nos últimos anos, por conta de inúmeros fatores econômicos e políticos globais. Com isso, os negócios e as marcas foram pressionados a aumentar seus preços nas gôndolas, o que, muitas vezes, causou ou causa retração no consumo ou retarda o R.O.I. de um lançamento. Surge então a necessidade de “cortar” custos, otimizar a cadeia ou fazer diferente: por que não verticalizar um dos “números” do nosso negócio?
EUREKA: Embalagem!
Pesquisei com mais detalhes, e nos últimos dez anos tivemos diversas aquisições de players de embalagens nos EUA e na Eurásia com o mesmo perfil. Abaixo, listo algumas das aquisições, não só de empresas, mas especialmente de fundos. O foco é claro, e sempre fica sobre o incremento de margem, da otimização da cadeia adequada aos produtos, o aumento da força em negociação com fornecedores e, claro, chegar até o consumidor antes do concorrente, com um preço que justifique o valor.
M&A e aquisições:
– Amcor/ Bemis – Berry Global: consolidação reforçando liderança no mercado de embalagens flexíveis e rígidas;
– Mondi Group – Schumacher Packaging: incremento de capacidade produtiva em múltiplas geografias no segmento de corrugados;
– Sonoco (Inapel – BRL) – Toppan: aumentar sua presença global em mercados de grande relevância;
– ProAmpac – TCP (Transcontinental Packaging): foco em embalagens flexíveis nos segmentos de: lácteos, proteínas, ração e outros produtos de consumo;
– Butterfly Equity: aquisição global da ePac Flexible Packaging, amior empresa de embalagens flexíveis do mundo;
– Bluegem Capital Partners: adquiriu o Pinard Group (2024), foco em embalagens premium para beleza e cuidados pessoais;
– ACON Investments/ Albea – criou a Amfora Packaging 2015 (Colômbia e Peru) foco em tubos, tampas e embalagens rígidas p/ cuidados pessoais, em 2025 fez a venda à Albea;
– Astorg (via Nemera) – aquisição da Milfra (2021) foco no segmento farmacêutico e cuidados pessoais.
Por trás disso tudo, pode estar escondida uma tendência ainda maior: estariam as marcas FMCG (Fast Moving Consumer Goods) e os fundo de Private Equity focados em economia real, entendendo que estão deixando muito capital na mesa, além de se tornarem dependentes de grandes potências do segmento de embalagens ao redor do globo?
Observem: nos últimos dez anos, os players do segmento de embalagens vêm se consolidando, com aquisições colossais sendo realizadas, movimentações que visam gerar valor de capital para as companhias, mas acima de tudo, protegerem seus negócios, criando um braço de ferro, muitas vezes desproporcionais com as marcas/ empresas, tornando-os reféns, o que, de alguma forma, tende a incrementar os custos em verticais cruciais aos produtos de seus clientes, diria que, para alguns, avançam no ponto nevrálgico de seus negócios.
Nos mais de vinte anos que vivi na indústria de embalagens, entendo que é lógico e valioso para os fundos e marcas focarem no core de seus negócios, que é de onde saem os grandes números, onde são aportadas grandes quantidades de capitais às áreas de R&D, inovação e produção. Porém, diversificar investimentos e operações em estruturas que tragam benefícios diretos ao custo do produto, reduzir a exposição e a dependência de grandes empresas, e ainda poder acelerar o processo de simplificação de estruturas (sustentabilidade), à frente dos competidores, pode ter um valor que outrora não era analisado ou sequer observado, e que certamente pode fazer sentido.
Eu não me impressionaria se isso ocorresse, especialmente em nosso país, dada a alta concentração e dominância de negócios do lado das marcas, do capital (Faria Lima), e nos convertedores. O tabuleiro para este jogo é do tamanho de um campo de futebol, e os jogadores estão diante de nós.
Que joguem os dados!!


