Reciclável não é o mesmo que reciclado

Por Luiz Grilo*

Reciclagem x reciclável
*Luiz Grilo é diretor Institucional e Novos Negócios da Yattó

Uma embalagem reciclável é tecnicamente apta a ser reprocessada. Uma embalagem reciclada, de fato, percorreu toda a cadeia: foi coletada, triada, processada e virou matéria-prima nova. A diferença parece semântica, mas não é, é o eixo em que a economia circular brasileira está hoje.

O Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio que consome, 16 anos consecutivos acima de 96%, segundo a Recicla Latas. No mesmo país, menos de 9% do total de resíduos sólidos urbanos é efetivamente reaproveitado, conforme a Abrema. E 40% do material que chega a uma cooperativa de catadores volta para o aterro, segundo estudo da Yattó de 2025. Três números que sintetizam o problema: reciclável não é o mesmo que reciclado.

O problema não é falta de consciência ambiental. É uma falha de design econômico em camadas. A primeira é tributária: o material reciclado é bitributado em relação à resina virgem. A segunda é de infraestrutura: a cadeia logística de retorno não fecha financeiramente fora dos grandes centros. A terceira é o equívoco de origem no produto. Muitas empresas migraram para embalagens flexíveis monomaterial — reduziram plástico, cortaram custos. Ganhos reais. Mas chegam a cooperativas sem esteira adequada e vão para o aterro.

Há ainda o mecanismo de crédito de compensação, legítimo como instrumento de financiamento, mas que em alguns casos virou atalho para quem quer o selo sem percorrer a rota. A meta de reciclagem subiu de 10% para 32%, e a taxa geral permanece estagnada abaixo de 9%. Os recursos circulam, o material não. Quem paga a conta é o município, e a própria cooperativa, que desconta esse custo do rendimento já mínimo.

A tecnologia entra não como redenção, mas como auditora. O Brasil já tem dados para mapear quais materiais são efetivamente reciclados em quais municípios. Mas aplicar inteligência artificial onde catadores trabalham no chão batido, sem teto, é instalar software em empresas sem energia elétrica. A demanda mais urgente das cooperativas hoje não é IA: é piso, é teto, é esteira.

O caso da latinha prova que o Brasil sabe construir cadeias circulares eficientes, e que o motor não é consciente: é margem. A latinha tem 97,3% porque tem valor de mercado consolidado. Se a embalagem de salgadinho tivesse o mesmo valor, ninguém a deixaria no chão. Digitalizar a cadeia de resíduos, criar subsídios e endurecer as regras de comunicação nas embalagens são passos concretos. A questão é se vamos esperar a crise ou antecipar a transição.

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