Olha a banana. Olha a oportunidade, freguesia!

Por Lígia Moraes*

*Lígia Moraes de Campos é cientista de alimentos, sommelière e pesquisadora de consumo em alimentos e bebidas. Fundadora da Fair Food Consulting, uma consultoria boutique dedicada a acompanhar seus clientes na jornada de inovação, do conceito ao consumidor

Se você é brasileiro, certamente já esteve em uma feira de rua e ouviu o vendedor de bananas usar o seu mais variado léxico para oferecer a iguaria. É uma cena típica da nossa cultura e um sabor marcante do nosso repertório sensorial. 

Agora, imagine este mesmo vendedor entrando na reunião de pipeline de inovação da sua empresa. “Olha a banana, minha gente!” Você o escutaria? Eu, como pesquisadora de consumo em alimentos e bebidas, recomendo que sim.  

O Brasil está vivendo um momento especial quanto à sua identidade, ou melhor dizendo, a Brasilidade. O Sul Global ganha protagonismo nos estudos de tendências. A cultura da América Latina vem sendo exaltada em eventos de grande visibilidade. Os olhos do mundo se voltam ao nosso easy way of life. A valorização do nosso cinema e produção cultural, a moda, e, claro, os nossos sabores. 

A banana, embora originária e nativa do Sudeste Asiático, encontrou em nossas terras condições ideais de cultivo e conquistou definitivamente o paladar brasileiro. Somos o 5º produtor mundial com 7 milhões de toneladas por ano, e exportamos menos de 0,7% desse volume para o mercado externo, principalmente para Uruguai e Argentina. Ou seja, somos gigantes em produção e consumo interno. O gosto pela banana é praticamente uma unanimidade nacional, e também latino-americana. 

Então, se a banana é “cosa nostra”, como canta Jorge Ben Jor (solta o play AQUI), o que estamos esperando para apropriarmos daquilo que está na nossa impressão digital cultural? 

Há um movimento no setor de Beauty que vem ganhando tração com cosméticos e perfumaria em 2025 e 2026, com marcas de luxo fazendo grandes apostas. Lançamentos de grande relevância como o Prada Balm, Nanatopia (L’Oréal / Borntostandout) e o Banana Rush (Juliette has a gun). A perfumaria brasileira está acordando com o sol batendo na janela com os lançamentos de O Boticário, Egeu Banana, e o recente “Yes, nós temos banana” da Granado. A curva de tendência está em plena ascensão e para alguns mercados pode até atingir a estabilidade rapidamente.

Por outro lado, no universo de Food & Beverage, os sinais ainda são tímidos. Senhoras e senhores, a tendência não avança no mesmo ritmo entre categorias e é justamente nesse descompasso que mora a oportunidade. Em tempos de alta exposição aos estímulos de consumo, o amadurecimento das curvas de tendencia ocorre acelerada e concomitantemente, em categorias paralelas. A banana para a categoria de F&B ainda está verde, e estou segura de que você não deveria vê-la amadurecer sem se posicionar.

Como sabor, a banana tem uma vantagem estratégica: é democrática, amplamente conhecida e de fácil aceitação global. Não se trata do apelo do novo, mas da força do nostálgico e do identitário. Se ela já faz parte do nosso cotidiano, talvez seja hora de assumir esse sabor como ativo. Ou vamos esperar que aconteça o que vimos com os snacks sabor cassava [mandioca] ou açaí, que ganharam relevância nos Estados Unidos antes de se consolidarem aqui, em nossa casa? 

A famosa Magnolia Bakery, em Manhattan, cena de encontros das mulheres de Sex and the City, presencia filas diárias de consumidores ávidos pelo Banana Pudding. A casa de aromas IFF incluiu o Banana Pudding em sua lista de Top Flavors de 2025, que pode ser estendido a sorvetes, confeitaria e panificação. Em uma collab de sucesso, a marca de cosméticos Glossier e Magnolia Bakery lançaram o Banana Pudding lip balm. Êxito de vendas. Fica o alerta para o white space no Brasil em collabs entre Beauty e F&B com a banana como protagonista.

Na Argentina, observa-se o crescimento do Le Banana Bites, snack congelado de banana com chocolate. Em Buenos Aires, a sorveteria Obrador Florida, conhecida pelos seus sabores sazonais, incluiu a banana no menu de sabores de outono 2026. 

Um pouco mais ousada, a indústria de bebidas dá seus primeiros sinais. Nos Estados Unidos lança suas primeiras demonstrações com Aura Bora, água gaseificada sabor Banana e Bergamota e aqui no Brasil nosso coquetel alcoólico Pitu Banana aterriza levemente no varejo.

banana
Banana é sucesso em produtos de várias categorias

A culinária brasileira, nosso patrimônio, nos deu clássicos como a bananada, a cuca de banana e o tradicional doce pernambucano Cartola. Coisa nossa, com ingrediente que é a cara do Brasil, em tempos de resgate e orgulho nacional. Aqui reside uma oportunidade clara para categorias de sobremesas, lácteos ou até mesmo um cross category. Para o mercado interno e para exportação. Trata-se de ocupar um território que já é nosso. 

Já parou para pensar o que o “Dubai Chocolate” fez pelos Emirados Árabes quando se tornou uma febre global? O ingrediente principal é o pistache, cujo maior produtor nem sequer são os Emirados Árabes e sim os Estados Unidos. Mas estamos seguros de que a palavra Dubai foi pronunciada por todo o globo. 

Então, por que não pensar em um Banana Café? Um Cartola Chocolate? Ou na Bananinha do Tachão de Ubatuba levando nosso patrimônio sensorial para o mercado global? 

It’s ok to go bananas! 

Deixemos a nossa criatividade fluir em nossas reuniões de inovação. Mas fica a provocação: este é o momento de fazer brilhar nossos ingredientes icônicos – e de escutar os insights desse feirante imaginário que sussurra durante o brainstorming:  

“Olha a banana!”

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