Estudo destaca avanços da nanotecnologia para tornar embalagens de alimentos mais sustentáveis e seguras

Pesquisa com participação de cientistas parceiros do INCT NanoAgro reúne os principais avanços sobre nanomateriais em embalagens biodegradáveis e aponta desafios para garantir segurança ambiental ao longo de todo o ciclo de vida desses materiais

Nanotecnologia em embalagens

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo gera mais de 400 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano, sendo que cerca de 36% desse total corresponde a embalagens. Desse volume, estima-se que menos de 10% seja efetivamente reciclado, enquanto grande parte acaba em aterros ou no meio ambiente, contribuindo para a poluição de solos e oceanos. Nesse contexto, o desenvolvimento de embalagens capazes de prolongar a vida útil dos alimentos e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos ambientais figura entre os principais desafios da indústria de alimentos. Cientes sobre o panorama, pesquisadores parceiros do INCT NanoAgro – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável participaram de uma ampla revisão científica que reúne os avanços mais recentes sobre o uso de nanomateriais em embalagens ativas biodegradáveis e discute os caminhos necessários para que essas tecnologias sejam efetivamente sustentáveis.

Publicado na revista científica Current Opinion in Food Science, o estudo analisa pesquisas desenvolvidas nos últimos cinco anos sobre a incorporação de nanomateriais em polímeros de origem renovável, utilizados na fabricação de embalagens capazes de conservar alimentos por mais tempo, reduzir perdas ao longo da cadeia produtiva e diminuir a dependência de plásticos convencionais derivados do petróleo.

Segundo os pesquisadores, a nanotecnologia tem ampliado significativamente o desempenho dessas embalagens ao incorporar propriedades antioxidantes e antimicrobianas capazes de retardar a deterioração dos alimentos. Além de aumentar a vida útil dos produtos, essas soluções podem contribuir para reduzir o desperdício de alimentos e agregar valor às cadeias produtivas.

No entanto, a revisão destaca que o desenvolvimento dessas tecnologias deve considerar não apenas sua eficiência durante o uso, mas também o comportamento dos nanomateriais após o descarte das embalagens. Embora muitos materiais empregados sejam biodegradáveis, a liberação de nanopartículas no solo e na água durante a degradação ainda demanda estudos mais aprofundados para compreender seus possíveis efeitos sobre microrganismos, plantas, animais e, potencialmente, sobre a saúde humana.

Os pesquisadores defendem que a avaliação da biodegradação deixe de considerar apenas parâmetros tradicionais, como perda de massa ou emissão de dióxido de carbono, incorporando análises mais abrangentes sobre ecotoxicidade, alterações na microbiota do solo, formação de biocoronas, absorção pelas plantas e possíveis impactos ao longo de toda a cadeia ambiental.

O trabalho também ressalta a importância da adoção dos princípios de Safe and Sustainable by Design (SSbD) e da abordagem One Health, que integram aspectos ambientais, agrícolas e de saúde humana desde as etapas iniciais do desenvolvimento tecnológico. Segundo os autores, esse modelo permite que novas soluções nanotecnológicas sejam concebidas de forma mais segura e sustentável antes mesmo de sua chegada ao mercado.

Para o INCT NanoAgro, pesquisas dessa natureza reforçam a importância de integrar nanotecnologia, sustentabilidade e segurança ambiental no desenvolvimento de soluções inovadoras para o agronegócio e para a indústria de alimentos. Ao reunir evidências científicas recentes e apontar lacunas de conhecimento, o estudo contribui para orientar futuras pesquisas e fortalecer o desenvolvimento de tecnologias que conciliem inovação, desempenho e responsabilidade ambiental.

A revisão foi desenvolvida por pesquisadores parceiros do INCT NanoAgro, vinculados ao Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano/CNPEM), à Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e à University of Saskatchewan (Canadá). Assinam o trabalho Francisco Lucas Chaves Almeida, Cristiane Grella Miranda, Juliana da Silva Bernardes, Diego Stéfani Teodoro Martinez e Rui Carlos Zambiazi.

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