Um hábito pode ajudar quando a marca não ajuda?
Por Ludger Tamaoki*

Em visitas a supermercados durante um projeto de embalagem para uma empresa de café, algo me chamou atenção: consumidores parados diante da prateleira, apertando os pacotes e cheirando o café antes de escolher. O gesto se repetia, quase automaticamente. Especialmente com as embalagens “almofada”, aquele pacote flexível, mais “molinho”. Ficou claro para mim que existia um paradoxo pouco percebido no consumo de café: o consumidor busca frescor, mas, sem saber, escolhe embalagens que aceleram a perda de qualidade.
Esse tipo de embalagem possui microfuros feitos durante o processo industrial. Eles existem para liberar gases que o café exala após a torra e a moagem. O problema é que esses microfuros também permitem a entrada de oxigênio, o principal inimigo do café. Ele acelera a perda de aroma e sabor. Na prática, muitas vezes, quanto mais cheiro o consumidor sente na gôndola, menos fresco aquele café realmente está.
A embalagem a vácuo, carinhosamente apelidada de “tijolão” pelos consumidores, resolve parte desse problema, porque impede a entrada de ar e aumenta o tempo de vida do produto na prateleira em até duas vezes. Mas isso nem sempre se converte em benefício para quem compra. O custo técnico de produção se reflete no preço. Além disso, após a torra, o café precisa descansar antes de ser embalado, liberando gases
ainda em contato com o ar.
As embalagens com válvula representam um passo além e, na prática, só existem em estruturas mais robustas, como aquelas embalagens com reforço nas laterais, conhecidas na indústria como 4 ou 5 soldas. Esse tipo de construção oferece maior barreira contra ar e umidade, mais estabilidade estrutural e, consequentemente, mais presença nas gôndolas. Em muitos casos, essas embalagens também substituem o ar interno por nitrogênio, um gás inerte. A lógica é simples: tira-se o oxigênio, entra o nitrogênio. Sem oxigênio, a oxidação desacelera, o café dura mais e o aroma se preserva melhor. É uma forma de o consumidor manter o hábito de cheirar o café antes de comprar, sem prejudicar a qualidade do produto.
É aí que o paradoxo se aprofunda. A embalagem almofada é a mais barata. A vácuo vem logo depois. As embalagens com válvula custam mais e normalmente ficam restritas aos cafés premium. Com o café cada vez mais caro, o risco da escolha aumenta. Quando falta clareza e confiança na gôndola, o consumidor faz o que pode. Aperta o pacote, sente o cheiro e decide. Esse hábito diz menos sobre economia e mais sobre a falta de confiança construída no ponto de venda. Empresas que investem em design de embalagens pensado para o ponto de venda e em construção consistente de marca reduzem essa dúvida e ajudam o consumidor a decidir com mais segurança.
Faz sentido para você?


