
Luiz Fernando de Oliveira Pereira começou a trabalhar com feiras de negócios em 1986, na Fispal, quando mais tradicional feira dedicada ao setor de embalagens no Brasil estava iniciando. E não parou mais.
Em 2005, idealizou a Embala Nordeste, lançada no ano seguinte com o objetivo de levar conhecimento, tecnologia e informação sobre o mercado de embalagens para uma região do Brasil que há anos cresce acima da média do país.
“O nordeste crescia, tinha marcas gigantes, e os fornecedores seguiam concentrados no sudeste e no sul do Brasil”, conta. “Existia uma lacuna.” Em 4 e 5 de agosto deste ano, em Fortaleza, o evento celebra vinte anos com sua maior edição desde a pandemia da Covid-19.
As quatro décadas dedicadas a feiras de embalagem fizeram de Luiz Fernando uma referência no setor. A experiência acumulada, seu DNA no segmento e a carência de feiras de negócios na região Nordeste são alguns dos motivos que explicam a consolidação e o avanço da Embala Nordeste.
“Pouca gente sabe, mas a Fispal começou com dois sócios portugueses, Eduardo Vidal e Ricardo Santos Neto, e eu tive o privilégio de aprender muito com eles, acompanhando de perto e colocando a mão na massa na estruturação de uma feira que se tornaria o que é hoje. Modéstia à parte, com muita contribuição do meu trabalho”, lembra o profissional, que não esconde ter se inspirado naquela feira para criar a Embala Nordeste.
1. Como nasceu a ideia de fazer uma feira de embalagens no nordeste?
O projeto da Embala Nordeste nasceu quando eu tinha vinte anos de atuação numa das principais feiras de embalagem da América Latina, que é a Fispal. A feira passava por um momento de transição, e eu acompanhava a evolução do mercado no nordeste.
A região estava expandindo bastante, e resolvi fazer ali o que eu aprendi a fazer na minha vida profissional. Não queria ser mais um em São Paulo. Achava que era preciso mostrar que o nordeste avançava, e que havia um espaço a ser ocupado.
Embalagem está no meu DNA. Sempre fui de olhar embalagens nos supermercados… antes da abertura do mercado brasileiro nos anos 1990, eu ficava admirando as embalagens que apareciam nos filmes. Acompanhava o que acontecia fora do Brasil, e sempre olhei para esse mercado.
Tinha o desafio de convencer as empresas de que uma feira de qualidade atenderia uma demanda que já existia.
Iniciamos em 2006 com a proposta de montar uma feira de embalagem em Olinda. Mas, em função do próprio mercado de Pernambuco, naquela oportunidade o projeto acabou seguindo por um caminho um pouco diferente daquele que tinha sido pensado de início.
Ali tinha uma grande necessidade no segmento de plásticos, e a Embala Nordeste acabou se tornando uma grande feira do setor do plástico. Por doze anos, o evento funcionou muito bem em Pernambuco. Mas alguns detalhes fizeram com que tomássemos a decisão de mudar para o Ceará.
Um deles era a infraestrutura do pavilhão. Teve um ano em que houve uma queda de energia. Não tinha luz de emergência, e precisamos colocar carros com os faróis acesos dentro do pavilhão. Hoje é até engraçado lembrar disso, mas foi uma loucura.
Depois tivemos outras questões, e analisamos opções na região. Fizemos algumas visitas técnicas, conheci um pouco mais as economias da região, e chegamos ao Ceará.
Naquela época, o Ceará já tinha um crescimento econômico sólido, com indústrias organizadas. É um estado do nordeste que tem grandes indústrias de alimentos, e por isso demanda bastante embalagem.
Mas o fator decisivo foi o pavilhão de Fortaleza, que sem dúvidas é um dos melhores locais para eventos do Brasil. Climatizado, moderno, com bom estacionamento, localização central. Então, em 2019 decidimos fazer a Embala Nordeste lá.
A feira, que sempre acontece em agosto, naquele ano foi em dezembro, que era o período com datas disponíveis. Foi muito legal, mas logo em seguida veio a pandemia…
2. E qual foi o impacto da pandemia justamente nesse momento de transição?
Para todo o nosso setor foi horrível. Ficamos dois anos sem fazer a feira, e retomamos em 2022. De lá para cá, essa vai ser a sexta edição no Ceará. E desde que fomos para lá, a feira tem tracionado. Ano após ano, a feira vem amadurecendo, com o foco em tecnologia e embalagens.
Este ano, a feira cresceu bastante em relação ao ano passado, quando já tivemos 66 expositores. Hoje são 110 expositores, 44 deles novos. Saímos de 2.800 metros quadrados para quase 4.000 metros quadrados de exposição.
Mas a feira vem crescendo principalmente em termos de qualidade. Tanto de público quanto de expositores. Temos levado grandes marcas regionais, nacionais e também multinacionais.
O visitante da feira a cada ano vem validando o projeto. Recebemos caravanas de profissionais que trabalham nas indústrias locais. As empresas hoje começaram a liberar seus funcionários, o que não acontecia no começo, para que eles possam ir para a feira.
E esse é o papel fundamental de uma feira. Além de fomentar negócios, ela também dá oportunidade de acesso a conhecimento, a tecnologia, a novidades. Isso tudo e muito networking.
3. Você mencionou especificamente a indústria de alimentos? É esse o foco da Embala Nordeste?
O setor de alimentos, como falei, é muito forte no Ceará. Tem empresas enormes. Mas eu diria que a Embala Nordeste é uma feira de embalagem. Não atende só a indústria de alimentos. Recebemos gente da indústria de higiene e limpeza, cuidados pessoais, do agro…
Eu falo para os nossos clientes que é uma feira de embalagem brasileira que acontece no nordeste. O Brasil realmente carecia de uma feira de embalagem, e a Embala Nordeste vem fazendo esse trabalho.
Pode até passar a impressão de que tem mais foco em processos, porque os equipamentos ocupam mais espaço. Mas tem muito expositor de embalagem. Hoje, alguém que tem que pensar num desenvolvimento novo vai lá ver a embalagem, o processo de fechamento, o processo de envase, soluções de fim de linha…
Recebemos pessoas de desenvolvimento, da fábrica, e também muito dono de empresa, o diretor que vai lá para poder se atualizar, para ver um equipamento.
4. Como você avalia a mudança do nordeste ao longo desses vinte anos em que a feira existe?
Quando começamos, o nordeste estava naquele momento de grande crescimento. Vinte anos depois, as indústrias de lá, as grandes, continuam gigantes. As grandes marcas que nós tínhamos no nordeste, aquelas que não foram adquiridas por grandes grupos, continuam crescendo muito.
O que mudou é que eu acho que hoje há mais maturidade. Quem está à frente dessas indústrias enxerga as oportunidades de melhorar em termos de qualidade, com qualificação de mão de obra, com acesso à informação, a inovação.
O aprimoramento do material humano do nordeste melhorou demais. As pessoas realmente passaram a ter acesso a coisas que não tinham. O país vem mudando, e isso faz com que as coisas não fiquem mais restritas ao sul e no sudeste, apesar de ainda serem as regiões mais fortes economicamente.
Mas o nordeste já tem uma história, uma economia forte, que movimenta muito dinheiro. Existem estereótipos que não fazem sentido. Algumas pessoas pensam na região como tendo aquelas lojinhas de bairro, com aquelas rendinhas. E se você for lá, hoje, você vai ver grandes shoppings, grandes marcas, os carros de alto padrão…
Hoje o nordeste está em um patamar de consumo muito similar ao das regiões mais ricas. É claro que que tem ainda muita coisa para crescer, mas do jeito que as coisas estão indo eu creio que em mais cinco, dez anos vai estar tudo muito nivelado.
Hoje tem fábricas no nordeste com tudo robotizado, automatizado. O que me move, continua me movendo, é seguir nessa luta para poder mostrar esse cenário para as pessoas, mostrar que o nordeste tem grandes oportunidades de negócio.
Eu acho que é importante deixar o recado para aquelas indústrias que estão procurando mercados para crescer. Olhem um pouco para o nordeste, porque vocês com certeza vão ver muita coisa importante acontecendo por lá
5. Hoje, o “Luiz Fernando da Embala Nordeste” é reconhecido por muitos como um profissional que ajudou a desenvolver o mercado de embalagens no Brasil. Você tem essa percepção?
Tive alguns professores, algumas pessoas que realmente me fizeram o olhar brilhar mais para trabalhar uma feira de embalagem. Aprendi muito com eles. São pessoas que fazem parte da minha formação, que me incentivaram a buscar alguma coisa que pudesse trazer benefícios para esse setor.
Um deles certamente foi o [Wilson] Palhares [fundador de EmbalagemMarca]. Uma pessoa que tinha um amor e um olhar diferenciado para a embalagem. Eu sempre respeitei, e até hoje continuo respeitando, o trabalho que vocês fazem.
Na mesma linha tem o Roberto Hiraishi [fundador da revista Embanews]. Lembro de ficarmos sentados na Fispal durante a montagem da feira, falando sobre feiras de embalagem no mundo e sobre o potencial enorme que havia no Brasil.
Outra pessoa importante é o Luiz [Nishikawa], da Sunnyvale, que conhece muito sobre o setor, tem uma visão de negócio impressionante. Sempre conversamos muito sobre as feiras. Ele sempre foi um grande parceiro.
Tem o Lincoln Seragini e o Fábio Mestriner, grandes conhecedores do design, e muitos outros que não tenho como citar aqui pelo tempo… Recentemente, encontrei o Seragini e ele me falou justamente que eu fazia parte da história da embalagem no Brasil. Fico emocionado ouvindo essas coisas, e realmente feliz por ter contribuído um pouco para o setor.
17ª Feira Embala Nordeste – Edição Comemorativa de 20 Anos
4 e 5 de agosto de 2026
Das 15h as 21h
Centro de Eventos do Ceará – Fortaleza


