5 perguntas para Thais Fagury

Presidente da Abralatas fala sobre os novos rumos da associação e o futuro da lata de alumínio no Brasil

Thais Fagury, presidente da Abralatas

O Brasil é reconhecido mundialmente pela liderança na reciclagem de latas de alumínio, mas o avanço das pautas de transição energética, a necessidade de integração da logística reversa e a busca por embalagens com menor pegada de carbono exigem novos passos estratégicos do setor. É nesse cenário de evolução que Thais Fagury assume a presidência da Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas).

Com quase duas décadas dedicadas ao setor de embalagens metálicas – com atuações de destaque à frente da Abeaço, da Prolata Reciclagem e no Conselho Fiscal da ABRE -, Thais combina bagagem técnica, visão acadêmica e uma reconhecida capacidade de articulação institucional. Engenheira de alimentos e especialista no ciclo de vida das embalagens, ela assume o comando da entidade com a missão de fortalecer o diálogo entre fabricantes, marcas envasadoras, varejo, poder público e catadores.

Nesta entrevista exclusiva, a nova presidente da Abralatas detalha os planos para aprimorar a logística reversa do alumínio no país, analisa a expansão da lata de alumínio para novas categorias de bebidas e explica como o setor pretende liderar as discussões sobre competitividade e economia de baixo carbono.

 

Após quase duas décadas liderando o segmento de embalagens de aço à frente da Abeaço e da Prolata, quais aprendizados operacionais e de articulação institucional desenvolvidos nessa trajetória você pretende aplicar diretamente na liderança da Abralatas?

O principal aprendizado está na força do trabalho colaborativo. A Abralatas já possui uma aproximação consolidada com associações de usuários e do setor de bebidas, mas o meu objetivo é expandir e fortalecer o relacionamento institucional da entidade em várias frentes.

Durante minha trajetória, sempre busquei liderar pautas de interesse comum entre entidades pares. Quando atuamos de forma conjunta e colaborativa – seja no desenvolvimento de estudos, na construção de políticas públicas ou no diálogo com órgãos como governos e a Anvisa -, o ecossistema de embalagens ganha muito mais representatividade do que quando atua de forma isolada. É exatamente essa visão de construção coletiva que trago para a liderança da Abralatas.

 

O Brasil já é uma referência global na reciclagem de latas de alumínio. Quais são os principais gargalos atuais na logística reversa e no diálogo entre fabricantes, varejo, recicladores e catadores que você pretende priorizar no curto prazo?

O setor de lata de alumínio para bebidas desenvolveu-se fortemente devido ao alto valor econômico do material, o que garante índices de reciclagem elevados. No entanto, do ponto de vista de sistemas formais e operacionais de logística reversa, ainda há espaço para estruturar processos mais robustos e integrados.

O foco no curto prazo é promover uma operacionalização ainda mais eficiente da logística reversa, aproximando e responsabilizando todos os elos da cadeia. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece que a responsabilidade é compartilhada: não podemos centralizar a condução das políticas apenas no envasador. Precisamos conectar os fabricantes de embalagens, os envasadores, o varejo, o gestor público, o consumidor e, fundamentalmente, as cooperativas de catadores e catadoras. Pretendemos aplicar o aprendizado que tivemos com a criação do Prolata para integrar esses atores com total transparência e geração de conhecimento técnico para o setor público e a sociedade.

 

A lata de alumínio tem expandido sua participação em categorias antes dominadas por vidro ou PET, como água, vinhos e coquetéis prontos. Como a entidade enxerga o potencial de inovação da latinha para os próximos anos em termos de embalagem sustentável?

O potencial de inovação da lata no Brasil é enorme. Setores como o de água enlatada e os coquetéis prontos (RTDs) demonstraram como a embalagem metálica pode ser disruptiva e conveniente. Olhando para o mercado global – incluindo Europa, Estados Unidos e Ásia -, identifico segmentos que no Brasil ainda não exploraram totalmente o formato, como o de cafés prontos para beber e o de achocolatados em porções individuais.

A adoção da lata para essas bebidas traz ganhos funcionais e ambientais claros. No caso dos achocolatados infantis, por exemplo, a lata elimina a necessidade de acessórios como o canudo plástico, que é um item complexo de revalorizar. À medida que os decretos de gestão de resíduos exigem menos geração de resíduos complexos, a indústria compradora de embalagens ficará cada vez mais atenta à praticidade e à circularidade inerentes ao alumínio, que é 100% reciclável e retorna indefinidamente para o ciclo produtivo.

Como a Abralatas pretende atuar junto ao poder público para defender a competitividade industrial do setor e acelerar políticas voltadas à transição para uma economia de baixo carbono?

A competitividade industrial precisa andar de mãos dadas com a descarbonização. O alumínio leva uma vantagem estrutural porque a reciclagem do metal gera uma economia energética gigantesca em comparação com a produção primária, reduzindo a pegada de carbono de toda a cadeia de bebidas.

No debate público sobre políticas fiscais, como as discussões da Reforma Tributária e do Imposto Seletivo, é fundamental que a regulamentação considere o impacto do ciclo de vida das embalagens. O estímulo a materiais com alta capacidade de revalorização e baixo consumo de carbono deve ser vetor de incentivo industrial. A Abralatas atua demonstrando ao governo e ao mercado que a lata de alumínio oferece segurança operacional, alta eficiência logística e ganho ambiental real para a balança de emissões do país.

 

Quais estratégias a indústria do alumínio está adotando para avançar na pauta de descarbonização em toda a cadeia produtiva – desde a extração da matéria-prima até o reprocessamento da lata usada?

A estratégia central é a maximização da circularidade: quanto menor for a necessidade de extração de matéria-prima virgem e quanto mais o material circular dentro da cadeia, menor será a pegada de carbono gerada. Os altos índices de reciclagem do setor já sustentam essa premissa no Brasil.

O passo além, que estamos priorizando, é levar mais clareza, rastreabilidade e transparência a esses dados. Não basta comunicar apenas os índices consolidados ao consumidor; precisamos demonstrar a métrica de descarbonização por trás de cada ciclo de reaproveitamento do alumínio. A transparência no compartilhamento de dados com o mercado e com as cadeias usuárias é a chave para posicionar a lata como a embalagem definitiva da economia de baixo carbono.

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