Pesquisadora cria sistema em que cores podem ser sentidas com as mãos

O design inclusivo, muitas vezes chamado de universal, é um pensamento que visa tornar produtos, serviços e experiências acessíveis para um maior número de pessoas – preferencialmente, todas. Diminuição das habilidades motoras, visão limitada e outras dificuldades enfrentadas por uma ampla parcela da população, dessa forma, tornam-se barreiras menos intransponíveis, e garantem mais autonomia para quem convive com elas, sem trazer complexidade para outros públicos. O raciocínio é muito simples. Se pessoas com algum tipo de redução de capacidade conseguem utilizar o produto, a tarefa pode ser realizada também por quem não convive com a mesma restrição.
No campo das embalagens, contudo, as pressões por custos e a necessidade de padronizações e eficiência extrema têm sido obstáculos ao avanço dessa abordagem em grande parte das categorias de consumo de massa. Nas gôndolas, a regra são os produtos pensados para pessoas sem nenhuma limitação. Para que essa situação se transforme, é preciso que o desenvolvimento de embalagens não apenas entenda as reais dificuldades enfrentadas por parcelas significativas da população, mas também que tenha à sua disposição soluções que simples e de aplicação viável. No campo das deficiências visuais, uma iniciativa se mostra como alternativa promissora.
A pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Sandra Marchi desenvolveu, ao longo de mais de uma década de estudos, um sistema tátil de identificação de cores, batizado See Color. Fruto de um projeto de doutorado, o trabalho é baseado na Teoria das Cores e nos princípios da leitura Braille, e consiste na aplicação de sinais em relevo que permitem a pessoas com baixa ou nenhuma visão entender e identificar cores. O sistema, hoje patenteado, foi validado em testes, e aos poucos ganha aplicações.
Cores são informações críticas
“A deficiência visual é uma das condições mais prevalentes no mundo, com 2,2 bilhões de pessoas afetadas, um número que tende a crescer 300% até 2050”, conta Sandra Marchi. “A cor é uma informação crítica em diversos produtos, como medicamentos e itens de higiene, e acaba sendo inacessível para um público relevante.” A pesquisadora destaca que, além dos cegos e pessoas com baixa visão, um grupo muito impactado são os daltônicos, trazendo dados que dão peso a essa informação. “Um a cada doze homens, e uma a cada duzentas mulheres sofre com essa condição.”

O See Color usa os triângulos cromáticos da teoria das cores em posições que fazem uma analogia com o mostrador de um relógio. As cores primárias (vermelho, amarelo e azul) formam um triângulo posicionado no que seriam 12h, 4h e 8h, respectivamente. As cores secundárias (laranja, verde e roxo), por sua vez, formam um triângulo invertido nas posições correspondentes a 2h, 6h e 10h. No eixo horizontal imaginário ficam o preto (3h) e o branco (9h). A partir dessas posições, o sistema, projetado para ser universal e intuitivo, permite identificar 94 variações de cores. “Nos testes que conduzimos, mesmo pessoas sem nenhuma experiência com leitura em Braille conseguem aprender e reconhecer as cores em menos de vinte minutos”, conta Sandra.
Os símbolos são sintéticos, sendo compostos por um traço horizontal na parte inferior, com um ponto central e uma haste posicionada na direção dos ponteiros do relógio. Conforme a angulação, é possível identificar a cor correspondente.
“A importância disso nas embalagens é potencialmente enorme”, define a pesquisadora da UFPR. “O sistema See Color pode ajudar uma pessoa a identificar a cor da tarja em medicamentos, ou a tonalidade da maquiagem, por exemplo, de forma autônoma. Ou seja, estamos falando de um sistema de inclusão que garante segurança e autoestima.”
A simplicidade do sistema See Color é um ponto favorável para que a identificação de cores através do tato ganhe novas aplicações. Considerando o mercado de embalagens, onde já são dominadas tecnologias para gravação de Braille com uso de clichês (como nos cartuchos de papel cartão, nas flexíveis e até em tampas de latas de alumínio) ou por meio de impressão com serigrafia (como no caso de rótulos), o desenvolvimento de aplicações parece já sair de um estágio mais avançado. Cabe agora às marcas e a seus fornecedores colocar o tema em pauta para que novos lançamentos de produtos cheguem às prateleiras com mais inclusão.


