Por Ricardo Sastre*

Ao caminhar pelo bairro ou em alguma feira de rua, percebe-se uma mudança na paisagem, os banners ou faixas sendo produzidos por inteligência artificial. O design vernacular perdendo espaço para o design artificial. Pastéis com bolhas de frituras perfeitas, feijões redondos, cana de açúcar milimetricamente tubular. Excesso de cores e informações estão sendo integrados no ambiente urbano.
Vernacular significa algo que é próprio ou característico de uma localidade, seja um bairro, uma cidade ou um país. Os azulejos portugueses e cartazes de ofertas feito a mão em supermercados são bons exemplos. O design vernacular é a criação de artefatos e expressões visuais, feitas pela própria comunidade, sem seguir regras, métodos ou formalidades próprias da atuação do designer. É a estética do cotidiano, ligada a cultura regional, que se manifesta nas ruas, em produtos artesanais, embalagens expostas em comércios de bairro ou em mercados públicos ou tradicionais.
A expressão cultural nativa cria identidade e memória, é importante a sua preservação. Substituir o design vernacular por uma arte feita por inteligência artificial é como derrubar uma casa tombada pelo patrimônio histórico, a diferença é que a primeira é uma memória imaterial e a segunda material.
Se para a indústria criar um projeto de embalagem ou identidade visual seja um custo, nada melhor do que a inteligência artificial para criar logotipos, impressos comerciais, fachadas e embalagens em 5 minutos. Afinal, um projeto simples cumpre apenas uma função informacional.
– Quero minha arte bem colorida para chamar atenção!

Se o desenvolvimento visual não for planejado para comunicar com o seu público, possivelmente eles não entenderão o que você quis dizer em sua manifestação artificial. Por um lado, a comunicação poderá ser simples e direta como “vendo pastel de carne + caldo de cana por R$ 15,00”. Neste caso, apenas comunica que o produto está a venda e já antecipa a negociação financeira. Se ele é bom ou ruim irá depender unicamente da interpretação de quem está recebendo a mensagem.
O preço influencia, talvez ele não seja compatível com o custo dos ingredientes de qualidade, mas a linguagem visual determina percepção de valor. Talvez a venda não aconteça por um julgamento prévio, baseado no olhar, antes da primeira mordida. Quem sabe o produto seja bom, mas primeiro temos que provar e quebrar a barreira inicial, ou, uma boa indicação de um amigo. Isso pode explicar por que alguns lugares improváveis fazem sucesso. Qualidade do produto, percepção de valor e preço justo devem andar em consonância.
TUDO É EXPRESSÃO, escrever com letras maiúsculas é como gritar para chamar atenção.
Na embalagem, separamos em partes (morfologia), quando planejamos um novo projeto. Cores, forma, fontes, informações regulatórias, ilustrações, imagens, se define uma linguagem e uma hierarquia de informações. Tudo é planejado em detalhes para melhorar a percepção dos consumidores com o produto e a marca. Nada é por acaso!
No design informal, o objetivo principal é incluir o máximo de informações para chamar atenção. As vezes a peça gráfica fala tanto que não consegue se expressar. Nem sempre quem irá executar uma composição visual terá experiência, informações e tempo para refletir sobre os objetivos do projeto. Afinal, tudo o que vem de graça ou com um custo baixo tende a perder valor. Para quem não tem nada, 50% é o dobro, o que vier está bom. Esta equação é sempre intangível e a inteligência artificial como uma ferramenta poderá potencializar ou piorar. Neste mercado informal, o que se percebe é um decréscimo de qualidade e perda cultural.
A IA funciona melhor com especialistas!
A inteligência artificial deu asas para a imaginação, mas guiada por um repertório que não foi imaginado por quem digitou o prompt. Cada individuo irá imaginar uma cadeira, por exemplo, baseada em seu repertório. Mesmo refinando as buscas, dificilmente a IA conseguirá reproduzir aquilo que está sendo imaginado por um ser humano, ela tem um repertório próprio baseado em outros repertórios. É um meta repertório.
A sociedade e o mercado se organizaram em grupos, influenciados organicamente por motivos tangíveis e intangíveis, como poder aquisitivo, grau de escolaridade e afinidades diversas. Entendemos e convivemos com níveis cognitivos distintos. O ambiente urbano tende a ser mais democrático, mesmo separados por clusters. Os espaços comuns como os parques, recebem um público diverso a cada dia, com percepções diferentes, é difícil estabelecer uma linguagem comum, por isso a cultura local deve gritar mais forte.
O que fica nesta reflexão é a evidência sobre os níveis de qualidade nas entregas visuais, a perda gradativa da memória imaterial e a reflexão sobre a formação e importância do design para a sociedade.


