5 perguntas para Juliana Seidel, da Rede pela Circularidade do Plástico

Juliana Seidel, líder do eixo de embalagem da Rede pela Circularidade do Plástico fala sobre os desafios do design para a realidade da reciclagem no Brasil

5 perguntas para Juliana Seidel, da Rede pela Circularidade do PlásticoNo papel e nas estratégias de marketing, o selo de “100% reciclável” tornou-se quase obrigatório nos rótulos de consumo massivo. No entanto, quando a embalagem é descartada e entra na esteira de triagem de uma cooperativa ou na esteira de moagem de um reciclador, a realidade do mercado brasileiro se mostra muito mais complexa. Rótulos incompatíveis, tintas fixas, misturas de polímeros e escolhas puramente estéticas ainda inviabilizam o reaproveitamento de toneladas de plástico todos os dias.

Para que uma embalagem seja efetivamente reciclada – e não apenas potencialmente reciclável -, a jornada de economia circular precisa pensada no início do projeto, muito antes de o produto chegar às prateleiras.

Nesta entrevista exclusiva, Juliana Seidel, líder do eixo de embalagem da Rede pela Circularidade do Plástico, analisa o abismo entre o ecodesign idealizado e a infraestrutura real de reciclagem no país. Ela aponta os maiores vilões do desenvolvimento de embalagens, defende a urgência de aproximação entre os criadores de produtos e os catadores de resíduos, e apresenta ferramentas gratuitas que podem ajudar marcas e fabricantes a desenharem embalagens verdadeiramente circulares.

 

No mercado atual, fala-se muito sobre embalagens “recicláveis”, mas a teoria nem sempre se traduz na prática das cooperativas e recicladores. Na realidade brasileira, qual é a diferença entre uma embalagem concebida teoricamente como reciclável e uma embalagem que é efetivamente reciclada no final da cadeia?

Essa distância entre ser teoricamente reciclável e ser efetivamente reciclado não é uma exclusividade do Brasil; é uma realidade global. Isso acontece porque, em muitos lugares, a embalagem é projetada sem que se compreenda a infraestrutura instalada e como esse material chegará ao reciclador. Para que uma embalagem seja efetivamente reciclada, ela precisa contar com infraestrutura de coleta, triagem e uma empresa recicladora disposta a transformá-la em matéria-prima para um novo processo produtivo.

Contudo, para que esse fluxo aconteça, a embalagem precisa ser concebida desde o início para entrar nesse caminho. No Brasil, já temos materiais com esse fluxo muito bem estabelecido nas cooperativas de catadores, como é o caso das garrafas PET e das latas de alumínio. Diferente do mercado europeu – onde a regulamentação veio primeiro, com aplicação de taxas para só depois construir o mercado -, o mercado de reciclagem brasileiro estabeleceu-se com base no valor econômico do material.

Para materiais mais complexos, o desafio é entender o design da embalagem para garantir que ela possa ser processada e engajar toda a cadeia. Na teoria, muitas embalagens recebem a marcação de “reciclável”, mas a reciclagem real depende de fatores estruturais e comportamentais. Por exemplo, a simbologia técnica de identificação das resinas (como os números 1, 2, 3) apenas indica o tipo de plástico, não garantindo que o item será reciclado.

Por fim, o papel do consumidor é determinante: se ele jogar uma garrafa PET no meio do mato, toda a infraestrutura criada para a destinação correta é anulada. Hoje, as cooperativas ainda lidam com um volume expressivo de rejeitos – que vão desde lixo orgânico misturado até materiais cujo design ainda não possui viabilidade técnica de reciclagem.

Quando designers e marcas começam a projetar uma nova embalagem, quais escolhas técnicas no desenvolvimento (como seleção de materiais, rótulos, tintas e adesivos) costumam ser as maiores vilãs e que acabam dificultando ou inviabilizando a triagem e o processamento do plástico?

O maior problema ocorre quando há a mistura de materiais incompatíveis entre si. O processo de reciclagem sempre prioriza insumos harmonizados. Por exemplo, em uma cadeia voltada para o polietileno (PE), os materiais precisam ser de PE ou compatíveis com ele. Se misturamos PET e PE na mesma estrutura, criamos uma embalagem inviável tanto para a cadeia do PET quanto para a do polietileno, uma vez que eles possuem temperaturas de fusão completamente diferentes.

O mesmo acontece ao misturar plásticos com alumínio ou papel: inviabiliza-se o processo convencional, exigindo etapas adicionais de separação que encarecem a operação. A orientação principal é focar na harmonização dos materiais e respeitar as cadeias já consolidadas – como as de PET, Polietileno de Alta Densidade (PEAD), Polietileno de Baixa Densidade (PEBD) e Polipropileno (PP).

No segmento de embalagens flexíveis, o principal gargalo é o uso de estruturas multimateriais incompatíveis. Enquanto combinações como PE com PP já possuem estudos que comprovam a viabilidade de reciclagem conjunta, a mistura de PE com alumínio ou PE com PET gera um resíduo muito mais complexo. A recomendação para evitar esses erros é consultar os guias de design disponibilizados pela Rede pela Circularidade do Plástico.

Um dos pontos centrais dessa discussão é o distanciamento entre quem desenha o produto nos escritórios e quem lida com o lixo no dia a dia. Qual é a importância de aproximar os desenvolvedores de embalagens da realidade operacional das cooperativas de catadores e dos recicladores finais?

Essa aproximação é fundamental. Os profissionais precisam sair da zona de conforto e compreender o impacto social e ambiental daquilo que projetam. Costumo dizer que todas as pessoas deveriam visitar, pelo menos uma vez na vida, uma cooperativa de catadores, um lixão e um aterro sanitário. Esse tipo de experiência muda para sempre a forma como lidamos com os resíduos.

Para quem desenvolve embalagens e as coloca no mercado, essa vivência é ainda mais crítica. Não basta criar uma embalagem focada apenas na estética do ponto de venda, com cores exóticas ou acabamentos complexos, sem pensar no pós-consumo. No futuro, escolhas inadequadas de design se traduzirão em custos financeiros e reputacionais mais altos para as próprias empresas, à medida que a legislação avançar sobre a responsabilidade pela destinação final. Dentro da Rede, promovemos ativamente essa troca entre os elos da cadeia por meio de iniciativas como o programa Circula Flex, focado no estímulo à reciclagem de embalagens flexíveis.

Olhando para a estrutura atual da cadeia de reciclagem do plástico no país, quais são os principais gargalos que impedem que mais materiais retornem como matéria-prima de alta qualidade para a indústria?

Um dos maiores gargalos é a criação de um mercado comprador consolidado para a matéria-prima reciclada. Quando analisamos a legislação, como o decreto de logística reversa de plásticos, o foco costuma estar no uso de conteúdo reciclado em novas embalagens. No entanto, o consumo global de plástico em outros setores é gigantesco.

O grande desafio é estimular a incorporação de plástico reciclado em todas as aplicações industriais possíveis – como no setor automotivo, na indústria moveleira e em utilidades -, utilizando insumos provenientes da reciclagem de embalagens. Ampliar a demanda por resina reciclada nesses diferentes mercados é um dos pontos mais desafiadores e necessários para fechar o ciclo.

Para as marcas e fabricantes que desejam adequar seus portfólios às exigências reais da economia circular a partir de hoje, quais caminhos e ferramentas prontas a Rede pela Circularidade do Plástico recomenda para encurtar essa distância?

A primeira recomendação é estudar os Guias de Design da Rede e utilizar a Retorna, uma ferramenta gratuita e intuitiva desenvolvida por nós. Ao responder às perguntas da plataforma sobre a estrutura do produto, o desenvolvedor visualiza em tempo real o impacto das suas escolhas na nota de reciclabilidade da embalagem. Isso gera um diagnóstico claro, permitindo que a empresa decida se mantém o projeto ou se faz intervenções técnicas para facilitar o processo de reciclagem.

Além disso, é essencial conectar-se com os programas de logística reversa existentes. A Rede está sempre aberta a novas empresas que queiram se engajar. Disponibilizamos informações e suporte através do nosso site, e-mail institucional, Instagram e LinkedIn. Quanto mais profissionais e marcas estiverem engajados em compreender e aplicar o ecodesign na prática, mais rápido avançaremos rumo a uma economia verdadeiramente circular.

Compartilhe!

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Email

Quer patrocinar essa seção?

Pesquise no campo abaixo

Inscreva-se em nossa News!

Preencha o campo abaixo e receba a Newsletter da EmbalagemMarca com informações sobre o que de mais relevante ocorreu no mercado de embalagens na semana.