Bourbon: o novo gin?

A categoria de bourbon vive um momento de ascensão sem precedentes no Brasil, consolidando-se como a nova fronteira do mercado de destilados premium

De acordo com dados da IWSR (International Wine and Spirit Research), o Brasil tem se destacado na América Latina como um dos mercados de crescimento mais rápido para o uísque americano, impulsionado por uma mudança no perfil do consumidor e pela sofisticação da coquetelaria nacional

Bourbon Jim Beam

Enquanto o mercado global de destilados enfrenta desafios de volume, o segmento de Bourbon no Brasil registra crescimentos anuais compostos (CAGR) robustos. Segundo a IWSR (International Wine and Spirit Research), há uma clara tendência de “beber menos, mas melhor”, com os consumidores migrando de uísques de entrada para rótulos de Bourbon com maior valor agregado e histórias de marca autênticas.

Hoje o Brasil lidera a demanda na América Latina, superando vizinhos em termos de volume de importação de marcas Kentucky Straight Bourbon, à medida que o paladar local se adapta às notas mais doces e abaunilhadas do milho, em contraste com a turfa e o malte dos escoceses tradicionais.

A popularização de clássicos como o Old Fashioned e o Whiskey Sour em bares de alta gastronomia nas capitais brasileiras é apontada pela IWSR como o principal motor de experimentação para o público jovem (25-40 anos). Marcas como Jim Beam, Maker’s Mark e Wild Turkey começam a cair no gosto dos consumidores brasileiros, além de uma das mais conhecidas por aqui, Jack Daniel’s, que apesar de ser tecnicamente um bourbon, pois cumpre todos os requisitos legais (mais de 51% milho), é comercializa como “Tennessee Whiskey” devido ao processo extra de filtragem em carvão.

Um bom exemplo desse boom no mercado de bourbon é a Jim Beam, marca mais vendida no mundo e que vem ampliando sua presença no Brasil em meio ao avanço da categoria no País. A marca registrou crescimento de 42,7% em 2025 na comparação com o ano anterior, após já ter avançado 17,2% em 2024, segundo dados da NielsenIQ (NIQ).

Além de acompanhar o crescimento desse mercado, a marca tem ampliado sua presença em um cenário de mudança no consumo de uísque no Brasil. Nos últimos anos, o bourbon passou a ganhar espaço, impulsionado por um perfil de sabor mais acessível e pela maior diversidade de ocasiões de consumo.

Produzido majoritariamente a partir de milho e envelhecido em barris novos de carvalho, o bourbon apresenta notas levemente adocicadas e um perfil equilibrado, características que dialogam com o paladar local e ajudam a explicar sua crescente penetração no mercado nacional.

Outro fator que contribui para a evolução da marca no país é a presença direta da Suntory Global Spirits, que passou a operar no Brasil em 2019. A estrutura local trouxe maior controle sobre distribuição, marketing e relacionamento com o trade, criando condições para acelerar a expansão e consolidar o posicionamento da marca.

Bourbon x “ginfusão”

O movimento atual do Bourbon guarda semelhanças impressionantes com a explosão do gin ocorrida no Brasil entre 2017 e 2021, mas com distinções estratégicas marcantes no comportamento do consumidor. Enquanto o gin teve como principal porta de entrada o drinque Gin Tônica, caracterizado por ser refrescante e visual, o bourbon se estabelece através do Old Fashioned, um coquetel mais complexo e clássico. Com a popularização do gin, novos coquetéis (ou apenas misturas com outras bebidas) surgiram nos cardápios de bares e restaurantes, desde o simples gin com energético até outras mais sofisticados, como Tom Collins, Basil Smash e o clássico Dry Martini, entre outros.

Essa diferença entre as características das bebidas reflete-se diretamente no perfil de consumo: o gin consolidou-se em ambientes sociais, diurnos e festivos, com um apelo altamente “instagramável”; já o bourbon atrai um público voltado para momentos noturnos, introspectivos ou gastronômicos, com um forte foco em lifestyle.

A expectativa da IWSR para os próximos anos na América Latina é que o bourbon continue a roubar market share de categorias tradicionais, posicionando-se não apenas como uma bebida, mas como um símbolo de sofisticação acessível para a nova classe média alta brasileira.

Oportunidades para a indústria brasileira

A ascensão do consumo de bourbon no Brasil, aliada às tendências macroeconômicas de 2026, abre um leque estratégico de oportunidades para a indústria nacional de bebidas e para a cadeia de fornecedores de embalagens. O movimento de “premiumização” e a busca por conveniência são os motores dessa transformação.

O sucesso dessas duas bebidas no Brasil demonstra que o consumidor está disposto a investir em categorias com forte identidade e versatilidade. Existe uma oportunidade clara para produtores locais criarem destilados envelhecidos que utilizem a expertise brasileira em madeiras nativas (como amburana e bálsamo) para oferecer perfis sensoriais que compitam com o dulçor do milho do bourbon.

Para os produtores de destilados e bebidas premium, a embalagem é o primeiro ponto de contato, além de ser um fator decisivo de compra. Há a oportunidades para os fabricantes de embalagens, principalmente de garrafas de vidro, oferecerem à indústria formatos específicos para a categoria, assim como aconteceu no boom do gin.

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