Ferramentas de automação, como RFID, inteligência artificial e gestão em tempo real reduzem conferências, inventários e espera nas docas; processo que podia levar até 14 dias passa a ser concluído em cerca de 30 minutos

Enquanto a busca por entregas mais rápidas aumenta a pressão sobre transportadoras e centros de distribuição, uma parte menos visível dessa corrida acontece antes do caminhão deixar o armazém. É nesse intervalo que as empresas tentam reduzir o tempo gasto entre recebimento, conferência, separação e expedição das mercadorias.
Na operação de armazenagem e distribuição do Grupo Asia Shipping, a conferência de uma carga que antes levava em média duas horas, passou a ser realizada entre cinco e dez minutos com o uso de identificação por radiofrequência, conhecida como RFID. O inventário, antes concluído em períodos que podiam variar de sete a 14 dias, pode ser finalizado em aproximadamente 30 minutos, conforme o tamanho e as características da operação.
A permanência média dos caminhões nas docas também caiu. O processo completo, que levava cerca de cinco horas, passou a consumir entre 30 e 40 minutos. Os resultados foram obtidos por meio de uma plataforma própria desenvolvida pela Hórus Logística, empresa adquirida pelo Grupo Asia Shipping em 2024, que combina RFID, automação, gestão integrada de dados e inteligência artificial.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla das cadeias de suprimentos. Estudo da Fundação Dom Cabral, realizado com 372 empresas brasileiras, identificou a digitalização e a automação entre os recursos utilizados para aumentar a eficiência das operações. O levantamento também mostra que algumas aplicações, como os assistentes de voz, ainda têm adoção limitada.
Na estrutura desenvolvida pela Hórus, um assistente de inteligência artificial responde, por texto ou comando de voz, a perguntas sobre o funcionamento do armazém. É possível consultar quantos pedidos foram separados no dia, quantos veículos estão nas docas, quais metas foram alcançadas e como está o andamento de determinada operação.
“A logística está tentando reduzir o tempo em que a mercadoria permanece parada dentro da própria operação. Conferência, inventário, processamento e espera nas docas são etapas pouco percebidas por quem está fora do armazém, mas que influenciam o custo, a produtividade e o prazo de entrega. Quando esses intervalos diminuem, toda a cadeia ganha capacidade de resposta”, afirma Silvio Fernandes, CEO da Hórus Logística.
Informações integradas reduzem etapas manuais
O hub acompanha o fluxo desde o lançamento do pedido até a expedição. A ferramenta reúne plano de embarque, ordem de montagem, listas de separação, dimensionais de produtos, histórico de estoque, acompanhamento de pedidos, consolidação de pallets e controle da entrada e saída de veículos. Também concentra informações financeiras e operacionais e está integrada ao sistema de gestão dos armazéns.
Com acesso em tempo real, os clientes podem acompanhar estoques, movimentações e indicadores sem depender da consolidação e do envio manual das informações. A redução do intervalo entre o recebimento e o processamento dos pedidos também permite realizar, conforme o horário, o volume e as características da solicitação, a separação e a expedição no mesmo dia, no modelo D0.
Segundo a companhia, a integração das ferramentas aumentou em 80% a produtividade da operação e permite que uma pessoa realize, no mesmo intervalo, atividades que anteriormente podiam demandar até quatro profissionais.
“Automatizar uma etapa isolada não resolve o problema quando as informações continuam dispersas. O ganho aparece quando recebimento, estoque, separação, expedição e transporte passam a ser acompanhados dentro do mesmo fluxo. Isso permite identificar desvios mais cedo e absorver um volume maior de operações sem perder previsibilidade”, explica Alexandre Pimenta, CEO da Asia Shipping.
RFID acelera conferência e inventário
O RFID é utilizado principalmente nas etapas de expedição e inventário. As etiquetas permitem a leitura simultânea de diferentes volumes, sem que cada item precise ser conferido individualmente. O sistema compara os produtos identificados com aqueles registrados no pedido e sinaliza possíveis divergências antes do carregamento.
Outra funcionalidade incorporada ao hub é o checklist eletrônico de recebimento, expedição e devolução. O registro reúne informações sobre motorista, veículo, placa e condições da carga, além de fotos, vídeos e assinaturas dos responsáveis.
Depois do preenchimento, o cliente recebe o documento e pode consultá-lo durante cinco anos por meio do número da nota fiscal. Nas três primeiras semanas após a implantação da ferramenta, foram produzidos 827 checklists.
“Reduzir o tempo operacional não pode significar perder rastreabilidade. A tecnologia precisa acelerar os processos e, ao mesmo tempo, manter um histórico verificável de cada movimentação. O acesso aos registros ajuda o cliente a acompanhar o nível de serviço, esclarecer dúvidas e identificar eventuais desvios”, acrescenta Fernandes.
A próxima atualização prevista é a captura automática de imagens durante as conferências, eliminando mais uma etapa manual do processo.
A tecnologia já está disponível nas três unidades de armazenagem e distribuição do Grupo em Santa Catarina e foi estruturada para ser incorporada a futuros centros sem a necessidade de desenvolver um novo sistema. As unidades somam 20 mil metros quadrados e atendem mais de 50 empresas. Duas delas possuem licenças da Anvisa para armazenar medicamentos, produtos para saúde, saneantes e cosméticos.
Sem ampliar a área física, a operação também adotou a verticalização e instalou estruturas porta-pallets, aumentando em 20% a capacidade de armazenagem. A expansão para São Paulo está em avaliação, com processos de concorrência em andamento.


