João Carlos de Abreu Guimarães, executivo com quatro décadas de experiência no setor elétrico, detalha os caminhos para uma migração segura

Em um setor intensivo em capital e focado na otimização de custos industriais como o de embalagens, a energia elétrica figura frequentemente como o segundo maior item da planilha operacional, atrás apenas da mão de obra. Diante da alta volatilidade das tarifas do mercado regulado e das crescentes exigências da agenda ESG por rastreabilidade na cadeia de suprimentos, migrar para o Ambiente de Livre Contratação deixou de ser apenas uma opção financeira para se tornar uma decisão estratégica de competitividade.
O impacto dessa virada é traduzido em números expressivos: levantamentos do Grupo Delta Energia mostram que indústrias de embalagens que adotam uma gestão especializada alcançam reduções médias de custo entre 15% e 30%.
Nesta entrevista exclusiva, João Carlos de Abreu Guimarães, consultor estratégico do Grupo Delta Energia e executivo com quatro décadas de bagagem no setor elétrico, detalha os caminhos para uma migração segura. Ele analisa as melhores práticas de gestão contratual, alerta para os conflitos de interesse que devem ser evitados na contratação de consultorias, e explica como a emissão de certificados I-REC e o uso de energia de fontes 100% renováveis estão impulsionando a descarbonização das fábricas de embalagens no Brasil.
Como funciona o Mercado Livre de Energia no Brasil e qual é a diferença em relação ao mercado tradicional?
No Brasil, o setor elétrico é dividido em dois ambientes de contratação: Ambiente de Contratação Regulada (ACR): É o modelo tradicional das residências e pequenas empresas. O consumidor paga uma tarifa estabelecida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), baseada nos custos de compra das distribuidoras, transporte, encargos e impostos. Não há opção de escolha: o cliente é obrigado a comprar energia sob as condições fixadas na legislação. Ambiente de Contratação Livre (ACL) ou Mercado Livre: Garante a liberdade de escolha do fornecedor de energia, da modalidade de fornecimento, do preço, das condições de utilização e do prazo contratual. Isso permite adequar a contratação ao perfil exato de cada cliente.
O Mercado Livre foi estabelecido no Brasil há 28 anos, atendendo inicialmente a grandes consumidores industriais (como Votorantim, Petrobras, CSN e Gerdau). Gradativamente, as exigências de carga foram reduzidas e, hoje, qualquer consumidor conectado em alta tensão pode migrar.
Qual é a perspectiva de abertura do mercado para os demais consumidores?
Está prevista a abertura gradual da baixa tensão. A partir de novembro de 2027, indústrias e comércios conectados na baixa tensão poderão migrar. A partir de novembro de 2028, a abertura será total para os demais consumidores brasileiros, incluindo as residências.
Falando especificamente da indústria de embalagens, qual é o peso da energia elétrica nos custos operacionais e quais as vantagens do Mercado Livre para esse setor?
A grande maioria das empresas de embalagens está conectada na alta tensão, de modo que já está elegível para o Mercado Livre. No setor industrial de embalagens, a energia elétrica costuma figurar como o segundo maior item do custo operacional, atrás apenas da mão de obra.
Além do peso financeiro, há a questão crítica da disponibilidade e confiabilidade do fornecimento: qualquer interrupção na energia gera prejuízos elevados na produção.
As principais vantagens da migração são:
- Redução de Preço: O preço negociado no Mercado Livre é, na maior parte do tempo, significativamente inferior à tarifa do mercado regulado.
- Flexibilidade e Previsibilidade: O cliente pode ajustar os contratos ao seu perfil de produção (por exemplo, consumindo mais em horários de tarifa mais acessível ou ajustando a demanda).
- Gestão do Ativo: Costumo brincar perguntando aos empresários: “Quem aqui delegaria a gestão do seu próprio negócio para o Governo Federal?” No mercado regulado, as condições de fornecimento são gerenciadas pelo governo e pela ANEEL. No Mercado Livre, a própria empresa assume o controle e a gestão do seu insumo energético.
De quanto costuma ser a economia gerada com a migração?
Por se tratar de uma commodity com preços voláteis, a economia varia de acordo com o momento da contratação. De modo geral, as economias oscilam entre 15% e 30%. Através de um monitoramento contínuo de preços, é possível manter uma economia perene em torno de 20% a 25% em relação ao mercado regulado.
Como as empresas que ainda estão no mercado regulado devem proceder para realizar essa migração? Vale a pena criar uma estrutura interna para isso?
O Mercado Livre possui uma complexidade técnica e regulatória que exige acompanhamento constante — seja no timing da compra, na negociação de flexibilidades ou na avaliação do risco de crédito dos fornecedores.
Para a maioria das empresas, não compensa financeiramente estruturar uma equipe interna exclusiva. É um processo análogo ao mercado de investimentos: antigamente aplicava-se apenas na poupança; hoje existem centenas de fundos com perfis de risco distintos, sendo necessária a assessoria de um gestor especializado.
O caminho mais eficiente é a contratação de uma empresa gestora de energia, responsável por avaliar o momento ideal para a entrada no mercado e extensão dos contrato e tratar dos procedimentos formais de migração com a distribuidora local (como a Enel em São Paulo), além de negociar contratos, selecionar fornecedores e gerenciar rotinas mensais, garantias e relatórios de economia e ajustar a contratação do transporte (demanda) junto à distribuidora, evitando multas e custos desnecessários.
Quais são os principais erros cometidos pelas indústrias ao migrar ou tentar gerenciar a energia elétrica?
Mapeio quatro falhas principais: tratar a conta de energia como um boleto passivo: Pagar a conta sem gerenciar os parâmetros do contrato ou sem dar o devido foco estratégico ao insumo; delegar a compra a profissionais sem conhecimento específico: Atribuir a negociação de energia ao setor de compras genérico (que compra insumos como parafusos e plásticos) sem dar o suporte ou a especialização necessária sobre a dinâmica do setor elétrico; escolher a gestora com foco exclusivo no menor preço do honorário: A taxa de gestão costuma representar entre 1% e 2% do custo de energia. Focar apenas em reduzir esse honorário e contratar uma assessoria com menor qualidade técnica pode custar muito caro, impedindo a captura das melhores oportunidades de economia de energia; e ignorar conflitos de interesse da gestora: Este é um ponto crítico. A empresa contratada para gerenciar a energia do cliente deve ser 100% neutra.
Como identificar se há conflito de interesse na gestão de energia?
O consumidor deve exigir total isenção da sua gestora, atentando-se a duas práticas que devem ser evitadas: comissão de geradores/fornecedores: Gestoras que cobram honorários baixos do cliente, mas recebem comissões de geradores para direcionar as compras de energia, tendem a favorecer os players que as remuneram; e venda própria de energia: Se a gestora também é a vendedora da energia, ela tenderá a indicar o momento de compra mais conveniente para o negócio dela, e não para o cliente.
A remuneração da gestora deve vir única e exclusivamente do cliente, garantindo o alinhamento de interesses focado na redução de custos e mitigação de riscos.
Muitas empresas do setor de embalagens exigem a comprovação de métricas ESG em toda a cadeia de suprimentos. Como o Mercado Livre auxilia no cumprimento dessas metas ambientais?
Praticamente toda a energia comercializada no Ambiente Livre é de origem renovável (eólica, solar, hídrica ou biomassa). Para comprovar formalmente essa rastreabilidade perante auditorias e relatórios ESG, utilizam-se os certificados I-REC (International Renewable Energy Certificate). A consultoria ou comercializadora emite esses certificados ao cliente, comprovando que a quantidade de energia consumida pela fábrica foi gerada por uma fonte limpa e auditada.
Para finalizar, qual é a sua visão sobre o futuro da energia elétrica na indústria e na sociedade?
A energia elétrica é central para o futuro da matriz energética global. Assistimos a um processo acelerado de eletrificação em massa: o crescimento vertiginoso dos data centers, a produção de hidrogênio verde, a frota de veículos elétricos (de carros a caminhões e ônibus) e a automação predial e residencial.
No futuro, veremos a integração massiva de sistemas de baterias e microgeração nas indústrias e residências com softwares de gestão inteligente operando no Mercado Livre — comprando e armazenando energia em horários de tarifas reduzidas e utilizando ou vendendo no horário de pico. O Mercado Livre é o ambiente capaz de prover a eficiência, os preços competitivos e a inovação necessários para essa transição.


