A embalagem é o reflexo da ação do ser humano

Por Ricardo Sastre*

A embalagem é o reflexo da ação do ser humano

Ao observar a história, em um determinado momento, surgiram as embalagens. Há quem atribui as cascas de frutas como as primeiras e as mais perfeitas embalagens. Além de proteger e avisar quando o produto está passando da validade, algumas cascas servem de pega para o consumo do conteúdo, como é o caso da banana

Os povos originários improvisaram na natureza uma forma de conter, proteger ou transportar alimentos. É comum observar folhas de bananeiras servindo como um envoltório ou até mesmo um porongo ou cabaça sendo utilizados para carregar líquidos. 

Ricardo Sastre - design
*Ricardo Marques Sastre é publicitário, especialista em expressão gráfica e gestão empresarial; mestre em design; doutor em Engenharia de produção e pós-doutorando em Design, pesquisador, consultor e professor universitário

A partir do crescimento da população mundial, sacas e cestos foram necessários para escoar a produção agrícola. Em um primeiro momento, sem identificação dos produtores e posteriormente com a marca da fazenda. No Brasil isso ocorreu porque os produtores de café exportavam seus grãos para a Europa e muitos misturavam folhas a até mesmo terra para lucrar mais. Os compradores passaram a exigir que as embalagens fossem identificadas para evitar fraudes e selecionar os melhores produtos. 

A partir da revolução industrial a história mudou rapidamente. No início da produção em série, os produtos eram feitos sob demanda, a capacidade produtiva das indústrias era limitada. Com a troca do vapor pela eletricidade, a capacidade produtiva das empresas aumentou e como consequência, começaram a acumular produtos no estoque. A solução foi investir em vendas e propaganda. 

O que antes era produzido somente o necessário, a partir do aumento da capacidade, as indústrias se obrigaram a buscar uma alternativa para distribuir em maior quantidade. Em menos de 20 anos, a era de vendas cedeu espaço para a era do marketing. O desafio era, além de organizar a cadeia produtiva, criar o desejo de compra nos consumidores. 

A consequência do aumento no consumo foi o acúmulo de bens materiais e consequentemente os desperdícios. Muitos personagens foram criados para desovar produções, como o marinheiro que ficava forte quando comia espinafre e o próprio bom velhinho que aparece nas chaminés no mês de dezembro.

E paralelo a essa evolução, as embalagens foram acompanhando o crescimento do mercado e as suas funções foram ampliando. Não bastava conter, proteger e transportar, a partir da entrada das redes de supermercado, ela precisava comunicar para atrair os consumidores. Com a continuidade do crescimento populacional, foi preciso levar o produto em condições seguras para lugares mais distantes. 

O mundo se acostumou com essa dinâmica e a felicidade se tornou dependente do consumo. Sintomas como a obesidade e a dependência química passaram a fazer parte da rotina das famílias. Querer consumir, mas não poder, incentivou a criminalidade, e a falsa ilusão de felicidade ao consumir um produto de marca, levou as pessoas a depressão e outras doenças psicológicas. 

Em detrimento das vendas, as marcas passaram a investir em embalagens mais atrativas, mas com alto impacto ambiental. Quando a humanidade se deu conta do tamanho do prejuízo para o planeta, as datas comemorativas já estavam enraizadas na cultura da sociedade. 

O pensamento linear de produzir, consumir e descartar se tornou hábito e quando isso acontece é muito mais difícil mudar. Experimente acordar todos os dias às 5 horas da manhã para realizar alguma atividade física. Se não houver desistência na primeira semana, levará muito tempo para seu corpo acostumar e tornar um hábito. 

Toda essa mudança de comportamento ao longo das décadas transformou a percepção da humanidade sobre a embalagem. Em sua origem, foi desenvolvida para ser um suporte para a manutenção da vida. Atualmente, as mesmas vidas que foram preservadas pela embalagem, começaram a transformá-la na principal responsável pelo aumento de impacto ambiental. 

A diferença de uma embalagem boa ou ruim é o seu uso. Nem as embalagens e tão pouco as empresas, na sua concepção física, conseguem ter autonomia para serem boas ou ruins. Alguém as criou.  

O poder de decisão está na mão do ser humano!

Ele é quem toma as decisões que nortearão as ações nas empresas. É o mesmo ser humano que consome demasiadamente e descarta as embalagens em locais impróprios. Se hoje estamos enfrentando um problema ambiental é porque as ações executadas ao longo do tempo foram norteadas por ideais que não favoreceram a natureza e o coletivo, no sentido completo das palavras.

A partir do momento que os seres humanos impulsionarem a transição da economia, a tendência é criar o hábito de tomar decisões que favoreçam a sociedade e o planeta. 

As embalagens e as empresas são feitas por pessoas!

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