Panorama do mercado de vinhos no Chile e tendências em embalagens

Por Flávio Palhares – o editor do portal EmbalagemMarca viajou a Santiago com apoio da Avery Dennison e All4Labels

O mercado chileno de vinhos: produção, vendas e exportações

O Chile consolidou-se como o um dos maiores exportadores mundiais de vinhos e o principal produtor do “Novo Mundo”. Sua geografia única, protegida por barreiras naturais (Cordilheira dos Andes, Oceano Pacífico e o Deserto do Atacama), proporciona condições fitossanitárias excepcionais, permitindo uma produção de alta qualidade com menor uso de defensivos agrícolas.

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Em volume, o país é um verdadeiro gigante e consolida-se como o 4º maior exportador de vinho do mundo, ficando atrás apenas dos tradicionais produtores do Velho Mundo, o trio europeu Itália, Espanha e França.
EmbalagemMarca ouviu produtores, fornecedores de insumos e designers que atuam no mercado chileno para traçar um panorama desse mercado.

Produção e área plantada

A superfície de vinhedos para vinhos finos no Chile estabilizou-se em torno de 130.000 hectares. Os vales centrais (como Maipo, Colchagua, Curicó e Maule) concentram a maior parte da produção. As uvas tintas respondem por aproximadamente 70% da área plantada, lideradas pela Cabernet Sauvignon, seguida pela emblemática Carménère e pela Merlot. Entre as brancas, destacam-se a Sauvignon Blanc e a Chardonnay.

A produção anual chilena oscila entre 1,1 e 1,3 bilhão de litros, dependendo diretamente de fatores climáticos e da disponibilidade hídrica. Neste ano de 2026, a produção deve superar 1,2 bilhão de litros.

Consumo interno e vendas locais

O mercado doméstico chileno é tradicionalmente pequeno quando comparado ao seu volume de produção. O consumo per capita estabilizou-se na faixa de 12 a 14 litros por ano. Do total de vinho produzido no país, apenas cerca de 15% a 20% são destinados ao consumo interno.

Embora o volume total comercializado localmente não apresente taxas expressivas de crescimento, há um forte fenômeno de premiumização no mercado interno. O consumidor chileno está substituindo o vinho de mesa de baixo custo por vinhos das categorias Reserva e Gran Reserva.

Diego Valenzuela, gerente de turismo da Viña Santa Rita

Nos últimos anos, temos observado um consumidor mais informado, porém também mais seletivo e racional em suas decisões de compra. O preço continua sendo o principal fator determinante, especialmente em contextos de incerteza econômica, embora coexista com um segmento que valoriza a origem, a história, a consistência e marcas confiáveis. Soma-se a isso uma significativa mudança geracional: consumidores mais jovens que priorizam a moderação, exploram novas categorias, como vinhos com baixo teor alcoólico ou sem álcool, e buscam opções mais simples, acessíveis e menos técnicas”, afirma Diego Valenzuela, gerente de turismo da Viña Santa Rita, uma das mais importantes vinícolas do Chile e eleita a melhor vinícola do mundo em 2025 pela revista Forbes.

Exportações

O verdadeiro motor da indústria vitivinícola chilena é a exportação, que absorve entre 80% e 85% de toda a produção nacional. Os dados mais recentes mostram que o Chile vende rotineiramente para além de suas fronteiras entre 700 milhões e 800 milhões de litros. Em anos de safras recordes, esse volume já chegou a encostar na casa dos 900 milhões de litros. O país sozinho responde por cerca de 7,8% de todo o volume de vinho comercializado globalmente. Os principais destinos do vinho chileno em quantidade são o Brasil, o Reino Unido, a China, os Estados Unidos, o Japão e o Canadá.

Aproximadamente 55% a 60% desse volume total saem do país já engarrafados (prontos para o consumo, com maior valor agregado), enquanto o restante é exportado no formato a granel (em grandes tanques) para ser envasado nos países de destino. 

Em valores, o vinhos do Chile levam anualmente cerca de 1,8 a 2,0 bilhões de dólares ao país.

Embalagens: canais, rotulagem e fechamentos

A competitividade logística do Chile depende diretamente da eficiência de suas embalagens. A indústria distribui seus formatos de acordo com as exigências de cada canal de venda (Off-Trade e On-Trade).

A garrafa de vidro de 750 mililitros é a embalagem soberana e o padrão de identidade do vinho no Chile. Detém cerca de 72% de participação de mercado no volume total comercializado. O vidro domina 100% do canal On-Trade (restaurantes, hotéis e bares) e as categorias de médio a alto valor no Off-Trade (supermercados e lojas especializadas).

Uma categoria que apresenta crescimento consistente no varejo alimentar, detendo cerca de 12% do volume comercializado é o bag-in box, com versões de 3 litros e de 5 litros. Essas embalagens têm como principal mercado o canal Off-Trade e do uso interno em cozinhas de restaurantes de alto giro. O apelo está na durabilidade (o vinho dura até 4 semanas após aberto devido à bolsa interna que colapsa sem deixar o oxigênio entrar) e na economia de escala para o consumo cotidiano em lares.

As embalagens cartonadas assépticas de 1 litro possuem forte relevância em volume, representando cerca de 10% do mercado, e são direcionadas estritamente ao canal Off-Trade popular. É o formato escolhido para os vinhos de mesa, focados nas faixas de preço mais baixas da população local.

Nibaldo Reyes, gerente de compras da Viña Santa Carolina

Apesar do forte apelo de marketing, as latas de alumínio (250ml e 269ml) ocupam um pequeno nicho de mercado, flutuando entre 1,5% e 2% de participação. As vendas são focadas no varejo de conveniência e em eventos ao ar livre, praias e festivais. São utilizadas quase que exclusivamente para vinhos jovens, aromáticos (brancos e rosés) e frisantes voltados ao público jovem.

As garrafas de PET (750ml e 1L)  possuem uma participação tímida, em torno de 4%, muito atrelada ao mercado de exportação a granel para envase no destino ou para linhas aéreas.Também aparecem um pouco em shows e eventos esportivos, onde o vidro é proibido por razões de segurança.

“De modo geral, as vinícolas chilenas exportam sua produção. Aqui no Chile, estima-se que a proporção de vinho exportado em relação à proporção de vinho consumido no Chile seja de aproximadamente 75%, e em alguns casos chega a 80%. As vinícolas, dependendo de sua estratégia, definirão a embalagem, os suprimentos que usarão e os tipos de vinho que venderão. Existem grandes vinícolas como Concha y Toro, San Pedro e Santa Rita, por exemplo, que vendem todos os tipos de produtos, desde vinhos finos e icônicos em garrafas até produtos vendidos em embalagens Tetra Pak ou em bag-in-box”, reforça Nibaldo Reyes, gerente de compras da Viña Santa Carolina, uma das vinícolas mais antigas do Chile e grande exportadora de vinhos. 

Rotulagem em garrafas de vidro

A rotulagem de vinhos no Chile vem passando por transformações importantes nos últimos anos. Os tradicionais rótulos magazine, de papel com cola, vêm sendo substituídos pelos autoadesivos. O que começou como uma novidade em algumas marcas no final da década de 1990, hoje é uma tendência irreversível. As etiquetas autoadesivas decoram entre 92% a 95% das garrafas de vinho produzidas no Chile. Rótulos magazine representam entre 4% e 5% desse mercado. A serigrafia (gravação direta no vidro) é restrita a edições ultra-premium e ícones (menos de 1% do mercado), eliminando o papel para criar uma estética minimalista e luxuosa, assim como os rótulos termoencolhíveis, que juntos representam uma fatia de cerca de 1% a 2% do mercado.

“Hoje em dia é impensável não ter etiquetas autoadesivas, porque com a tecnologia que desenvolveram, os rótulos se tornaram mais adequados às necessidades da indústria vinícola. E a tecnologia digital ajuda muito”, conta Nibaldo Reyes, da Santa Carolina. “É muito importante dizer que com o papel autoadesivo não há restrições de formato, nem restrições de corte e vinco, ao contrário do que acontecia com outros tipos de rótulos. Antes, qualquer design que envolvesse uma mudança de formato significava um investimento, o que não acontece mais”, ele continua. “Além disso, para os vinhos brancos e os espumantes, os substratos que utilizamos nos rótulos autoadesivos são muito melhores em contato com a água. Os rótulos hoje têm adesivos muito potentes, não representam mais problemas, porque a tecnologia para sua aplicação em larga escala avançou muito, principalmente no que diz respeito às matérias-primas.”

Os principais substratos utilizados nos rótulos autoadesivos pela indústria de vinhos chilena são os papéis de fibra natural (Felt/Texturizados), encontrados em cerca de 65% das garrafas de vinho fino. Conferem uma sensação tátil de alta qualidade, essencial para as categorias Reserva para cima. Recebem tratamentos como Hot Stamping (detalhes metalizados) e verniz UV localizado em alto relevo. Os filmes plásticos (BOPP) representam cerca de 35% das aplicações, concentrados em vinhos brancos, rosés e espumantes. A escolha do BOPP impede que o rótulo seja danificado ou descole quando a garrafa é submetida à umidade de baldes de gelo ou geladeiras comerciais. 

Fechamentos

O Chile foi um dos pioneiros na quebra do preconceito contra vedações alternativas fora da Europa. As rolhas de cortiça ainda são o principal sistema de fechamento, estando presentes em cerca de 65% das garrafas chilenas. A cortiça natural é reservada para vinhos de guarda (vinhos que evoluem na garrafa), enquanto as rolhas técnicas (como as da marca Amorim ou Nomacorc) são usadas em vinhos de consumo rápido que exigem controle preciso de oxigenação.

“No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, quando os portugueses, que são os maiores produtores de cortiça do mundo, começaram a enfrentar problemas na produção de rolhas – que não atendiam aos padrões de qualidade ou que deixavam um sabor indesejável no vinho, a indústria deu um passo em frente e desenvolveu uma alternativa a ela, a tampa de rosca (screw cap)”, lembra Reyes.

Hoje a tampa de rosca conquistou impressionantes 35% do mercado chileno, e vem crescendo. Tornou-se o fechamento padrão para vinhos brancos e rosés jovens devido à excelente vedação contra o oxigênio (mantendo o frescor) e pela praticidade de abertura. Também cresce fortemente em tintos de entrada destinados à exportação para países anglo-saxões e para o Brasil.

As rolhas sintéticas hoje respondem pelos 3% restantes, em declínio devido à substituição por tampas de rosca ou rolhas aglomeradas mais sustentáveis.

Sustentabilidade e economia circular

A indústria vitivinícola chilena compreendeu que a sustentabilidade não é apenas uma bandeira ética, mas um requisito comercial obrigatório para acessar mercados exigentes na Europa e América do Norte, principalmente no Canadá.

Criado pela associação setorial Wines of Chile, o Código de Sustentabilidade é uma certificação pioneira que hoje cobre mais de 80% das exportações engarrafadas do país. Ele avalia práticas em três áreas: agrícola (gestão do vinhedo), adega (processo industrial e embalagem) e social (trabalhadores e comunidade).

Ações em Economia Circular e Embalagens

Aliviamento do Vidro (Garrafas Eco-Light): As vinícolas chilenas lideram uma corrida para reduzir o peso de suas garrafas de vidro. Garrafas tradicionais que pesavam mais de 500 gramas foram substituídas por modelos de 380 gramas a 420 gramas. Essa redução reduz as emissões de carbono tanto na fabricação do vidro quanto no transporte marítimo global.

“As garrafas também evoluíram muito nos últimos 30 anos, principalmente em termos de peso. Há uma demanda crescente por menos garrafas, mais leves, com menor pegada de carbono e assim por diante. As empresas vêm desenvolvendo garrafas chamadas “ecológicas” ou “ecolight”, que contêm muito menos vidro e são capazes de suportar variações de temperatura e a pressão do vinho, o que torna o mercado cada vez mais exigente”, explica Nibaldo Reyes.

Andrea Garcia, gerente de marketing da Viña Vik

No mercado de vinhos de luxo, a sustentabilidade também é um ponto levado em consideração. É o caso da Viña Vik, eleita a melhor vinícola do planeta pelo prestigiado ranking World’s Best Vineyards. “Estamos em transição para o ‘luxo responsável’. Isso inclui otimizar o peso das garrafas sem comprometer a percepção, usar madeiras certificadas, tintas de baixo impacto, reduzir o volume das embalagens e projetar para uma logística eficiente. Também utilizamos papéis certificados, entre outras coisas. Nossa política é ser o mais sustentável possível em todos os nossos processos”, diz Andrea Garcia, gerente de marketing da Vik.

Além do aliviamento de peso das garrafas, o Chile implementou uma das legislações de reciclagem mais rígidas da América Latina. A Lei REP (Responsabilidade Estendida do Produtor) obriga as vinícolas a financiar e organizar a coleta e reciclagem de uma porcentagem das embalagens que colocam no mercado local, impulsionando o uso de materiais 100% recicláveis.

“O setor enfrenta um cenário desafiador, marcado por um consumo mais contido e alta concorrência, mas também com oportunidades claras. O foco será na premiumização, na construção da marca e na execução eficiente”, conta Diego Valenzuela, gerente de turismo da Santa Rita. “No nível do portfólio, veremos um maior desenvolvimento de categorias como vinhos com baixo teor alcoólico ou sem álcool, juntamente com ofertas mais versáteis e fáceis de entender. Em paralelo, a sustentabilidade e a rastreabilidade continuarão a ganhar relevância, não apenas como diferenciais, mas também como padrões esperados pelos consumidores”, ele diz.

Design como agente de premiunização

Para compreender o sucesso global do vinho chileno, é preciso olhar também para o design. Em um mercado internacional saturado, onde centenas de garrafas competem simultaneamente pela atenção do consumidor nas gôndolas e e-commerces, a embalagem deixou de ser um mero recipiente protetor para se tornar o principal vetor de comunicação, narrativa e diferenciação de uma marca. 

Historicamente, o Chile construiu sua fama internacional baseando-se em uma excelente relação custo-benefício, entregando vinhos corretos e acessíveis em larga escala. Contudo, o grande movimento da indústria vitivinícola chilena nas últimas décadas tem sido a premiunização.

Para convencer o consumidor global de que o Chile produz vinhos ícones e de alta gama, capazes de competir diretamente com os clássicos franceses e italianos, o design precisou evoluir. Garrafas com linhas sofisticadas, o uso de papéis de fibra natural com texturas rugosas, relevos secos e detalhes em hot stamping dourado ou cobre funcionam como códigos visuais instantâneos de luxo e tradição. O design bem executado justifica um preço maior na prateleira antes mesmo de a garrafa ser aberta.

“A decisão na prateleira é rápida e funcional. Os consumidores priorizam preço, origem e variedade, e depois a marca. Nesse contexto, o rótulo deve comunicar de forma clara e direta. Hoje, designs simples com informações concretas que facilitam a escolha funcionam melhor do que os mais técnicos ou complexos. Há uma oportunidade significativa para o setor tornar o vinho mais acessível por meio da comunicação”, ressalta Diego Valenzeula, da Santa Rita..

O Chile possui uma geografia única no mundo: uma longa e estreita faixa de terra espremida entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes. Essa configuração cria uma infinidade de microclimas e terroirs, desde a aridez do deserto do Atacama ao norte até o frio extremo do Vale de Malleco ao sul.

O desafio do design de embalagem é traduzir essa complexidade geográfica para o público leigo. Vinícolas chilenas utilizam o design para contar essas histórias através dos rótulos.

Jesús Vial Valdés, fundadora do JVD Estúdio

Em mercados onde os consumidores ainda não nos conhecem, a embalagem funciona como a ‘primeira contadora de histórias’: se ela aumenta a taxa de experimentação, sabemos que está cumprindo seu papel”, diz Andrea Garcia, da Vik.

No mercado chileno, o design de embalagens é o elo indispensável entre a engenharia agrícola e o marketing de percepção. Ele é responsável por capturar a essência cultural, o respeito à terra e a inovação tecnológica do país, empacotando tudo em uma experiência visual e tátil.

Jesús Vial Valdés, fundadora do JVD Estúdio, agência chilena especializada em branding e packaging estratégico, com forte atuação no mercado de vinhos, falou sobre esse conceito: Temos um lema, um slogan, uma filosofia: primeiro o conceito, depois o design. Os clientes costumam nos pedir para desenvolver a estratégia de marca e o portfólio de produtos para a pirâmide de consumidores. E cada um tem sua própria estratégia para isso. Também trabalhamos muito nisso com o que chamamos de mesa redonda, onde toda cadeia está representada. Isso significa que coletamos informações do diretor de produção, do marketing, das vendas, das finanças, da sustentabilidade, da gráfica e de outros fornecedores. Essas informações são importantes para se criar um produto muito estratégico. Então, tudo isso é fundamental para chegar a um design. Em última análise, o design é o resultado de toda essa coleta de informações, para que venda, para que seja um produto que venda constantemente”.

 

 

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