Reciclagem do alumínio impulsiona a circularidade

Por Tamires Silvestre*

Reciclagem do alumínio impulsiona a circularidade
*Tamires Silvestre é diretora de Sustentabilidade da Ball para a América do Sul

O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma trajetória de destaque na reciclagem de latas de alumínio. Há mais de 15 anos, o país mantém uma taxa de reciclagem superior a 95%, segundo dados da Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas). O resultado é motivo de reconhecimento, mas também nos convida a uma reflexão: recuperar praticamente todas as latas colocadas no mercado é suficiente para garantir uma economia verdadeiramente circular?

A resposta passa por olhar além dos índices de reciclagem. O sucesso brasileiro demonstra a força de uma cadeia que conecta indústria, cooperativas, profissionais da reciclagem e consumidores. Mas a circularidade não se encerra na recuperação dos materiais. Ela depende, sobretudo, da capacidade de reinseri-los nos processos produtivos, preservando seu valor e reduzindo a necessidade de extrair novos recursos naturais. Em outras palavras, não basta evitar que o alumínio se torne resíduo. É preciso garantir que ele continue sendo matéria-prima.

Essa distinção ganha ainda mais relevância diante dos desafios globais. Segundo o Circularity Gap Report 2025, desenvolvido pela Circle Economy em parceria com a Deloitte, apenas 6,9% dos materiais que ingressam na economia mundial são provenientes de fontes secundárias. O percentual evidencia que, apesar dos avanços em diferentes setores, a economia global tem uma grande oportunidade no que se refere à utilização de matérias-primas virgens.

Nesse contexto, o alumínio oferece uma oportunidade concreta de enfrentar esse desafio. O material pode ser reciclado muitas vezes sem perder suas propriedades fundamentais, permitindo sua utilização em novos ciclos produtivos. Além disso, segundo o International Aluminium Institute (IAI), sua reciclagem economiza cerca de 95% da energia necessária para a produção de alumínio primário. Em um cenário de pressão crescente pela descarbonização da indústria, esse diferencial evidencia por que ampliar o uso de alumínio reciclado deve ser uma prioridade, e não apenas uma possibilidade.

Para aproveitar cada vez mais o potencial da circularidade, é fundamental que a recuperação do alumínio esteja cada vez mais conectada à sua reinserção na cadeia produtiva. Nesse processo, a indústria desempenha um papel importante ao incorporar conteúdo reciclado na fabricação de novas embalagens, contribuindo para reduzir a demanda por recursos naturais e as emissões associadas à produção.

Na Ball, entendemos a circularidade como uma das principais alavancas para a descarbonização da indústria e para o desenvolvimento de cadeias de valor mais resilientes. Em 2025, globalmente, 74% do alumínio utilizado pela companhia no negócio de embalagens para bebidas teve origem reciclada. Além de ser um indicador de desempenho, esse percentual demonstra como a incorporação de material reciclado pode fazer parte das decisões industriais e contribuir para aproximar os compromissos ambientais da operação.

O Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio, celebrado em 28 de outubro, é uma oportunidade para reconhecer os avanços brasileiros, mas também para refletir sobre o futuro. O histórico demonstra que é possível construir sistemas de reciclagem eficientes e duradouros. A oportunidade agora é ir além da conquista dos altos índices e garantir que o material recuperado continue gerando valor ambiental e econômico.

Se a reciclagem nos ensinou a reconhecer o valor dos materiais depois do consumo, a circularidade exige que esse valor seja considerado desde o início da produção. É essa mudança de perspectiva que pode transformar uma trajetória de sucesso na recuperação do alumínio em um modelo ainda mais consistente de uso eficiente dos recursos.

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