Nos últimos anos, a irlandesa Smurfit Westrock, que se apresenta como líder global de embalagens sustentáveis, vem ampliando sua presença no Brasil. Dois pilares têm se destacado nesse processo: inovação e sustentabilidade. Para falar sobre a importância da pauta ESG no dia a dia da companhia, inclusive no desenvolvimento de projetos conduzidos com os clientes, Luciana Souto, diretora de comunicação, branding e sustentabilidade da empresa no Brasil conversou, com exclusividade, com EmbalagemMarca.
1 – A cadeia de embalagens vem sendo pressionada a avançar em pautas de sustentabilidade. Como esse tema é abordado na Smurfit Westrock?
Quando olhamos para nossa atuação como empresa, e até pelo material com que trabalhamos, que é o papelão ondulado, circularidade está na nossa raiz, no nosso DNA. E aqui falamos de circularidade em tudo. Desde a nossa produção, captação de água, uso de energia, a forma como otimizamos o uso de recursos… e também de como aproveitamos os resíduos.
Nossa fábrica de Três Barras (SC) é um bom exemplo. É onde produzimos papel kraft. Hoje é a maior operação do grupo nas Américas. Todo resíduo que surge no processo de produção do papel é transformado em adubo orgânico, que vai para pequenos agricultores da região. A produção desses agricultores retorna para a nossa fábrica, no nosso refeitório, por meio de frutas, legumes, verduras. Trabalhamos muito em projetos junto às comunidades nas proximidades das fábricas para gerar impacto social, olhando para essa dimensão da plataforma ESG. No ano passado, investimos cerca de 10 milhões.
2 – E no caso das embalagens que vocês produzem, como entra o tema da sustentabilidade?
Quando olhamos para o cliente, outro público importante, esse aspecto está em como pensamos na embalagem, desde o início. Que tipo de papel será utilizado, qual a estrutura mais leve possível, com menor quantidade de material… sempre mantendo a eficiência, passando por testes de resistência… Estudamos qual é a melhor onda, pensando no melhor equilíbrio entre material e gramatura, e pensamos também no fim de vida desse material. A embalagem será reciclada? Se não for, é importante que utilize tinta à base água, como a nossa, para não causar danos ao meio ambiente e se biodegradar naturalmente.
Temos uma estrutura com ferramentas de design e inovação para apoiar nossos clientes. Quando definimos as características da embalagem, como dimensões, resistência necessária, forma de transporte, a própria ferramenta traz opções que mostram onde se consome mais, ou menos, material, qual tem o menor impacto em termos de volume, e como isso impacta o número de caminhões ou contêineres e consequentemente a pegada de carbono… Com isso, conseguimos fazer um processo de cocriação que ajuda o cliente a pensar em sustentabilidade com suas embalagens, trazendo resultados financeiros e criando valor.
No projeto da Capellaro Fruits, por exemplo, que apresentamos no Fórum Abre de Sustentabilidade, trabalhamos com o cliente para achar uma solução de embalagem que fosse 100% biodegradável e que permitisse a ele eliminar o uso de EPS, mantendo as características técnicas necessárias e buscando oportunidades de reduzir custos com a eliminação de etapas no processo deles.
3 – Em projetos como esse que a senhora mencionou, às vezes as reduções de custo aparecem quando se olha para o todo, mesmo que o custo unitário da embalagem acabe ficando um pouco maior. A senhora sente que, de forma geral, o mercado está aberto a olhar para isso? Ou a discussão fica mais focada em custos unitários das alternativas de embalagem?
Nós buscamos construir parcerias de longo prazo com nossos clientes. Quando vamos fazer um projeto, visitamos a fábrica deles, entendemos os processos. Na maior parte das vezes, nossos clientes são super abertos, porque primeiro procuramos mostrar as oportunidades identificadas. Por exemplo, se algo está gerando um retrabalho ou um processo a mais. E então mostramos uma solução que pode melhorar a produtividade. Se aliado a isso conseguimos ainda medir o impacto na cadeia, o discurso torna-se muito mais interessante. E, além disso, procuramos envolver não apenas o comprador, mas outras áreas da empresa interessadas no projeto, como marketing, porque elas podem identificar valor. Procuramos envolver quem tem uma visão sistêmica do problema, e não apenas quem está olhando para a compra de material.
4 – Dentro dessa lógica, vocês têm sentido um avanço das embalagens prontas para ir do transporte à exposição nas prateleiras (SRP – Shelf-Ready Packaging)?
Isso tem crescido. Não como na Europa, onde isso já está consolidado, até pelo sistema de reposição nas lojas. Mas em vários clientes, mudamos as caixas para o sistema SRP porque eles sentiram aumento de venda. A partir do momento em que se tem maior visibilidade no ponto de venda, em que há maior contato com o cliente, a marca ganha destaque na prateleira. Ela se torna mais lembrada, e acaba sendo mais comprada.
Nós temos também uma ferramenta que é capaz de medir esse impacto visual na prateleira antes de o projeto ser implementado. Fazemos essa simulação para os clientes. Trazemos duas ou três versões de design, com opções de cores, expostas com as marcas concorrentes, para ajudar o cliente a decidir qual é a melhor para ele.
Temos um projeto com a Betânia, de um iogurte infantil, que era um produto novo e precisava de mais comunicação. Eles precisavam contar que o produto podia ficar fora da geladeira, ir no lanchinho das crianças… A embalagem expositora ajudou justamente a comunicar a proposta do produto, mostrando os diferenciais ali no ponto de venda.
Temos também muitos casos de SRP na área de biscoitos, principalmente porque o manuseio acaba danificando o produto, e esse tipo de caixa ajuda manter o produto íntegro até que chegue às mãos dos consumidores. Enfim, esse é um sistema de embalagens com grande potencial de crescimento.
5 – A senhora mencionou há pouco que a circularidade faz parte do pensamento da Smurfit Westrock. Vocês têm programas de logística reversa das caixas que vendem?
Para recuperar a embalagem dos nossos clientes, temos modelos diferentes. Trabalhamos em parceria com alguns clientes para recuperar embalagens, inclusive de forma remunerada. Com a Wine [distribuidora de vinhos], por exemplo, recolhemos as caixas que os clientes levam às lojas deles. Nos últimos dois anos, coletamos com eles 1,4 mil tonelada de material.
Temos também parcerias com redes de varejo, para facilitar a coleta direto da fonte. E é lógico que não temos foco em recuperar apenas as nossas embalagens, coletamos caixas feitas por outras empresas também.


